23 de mai de 2015

UM POETA NA FRONTEIRA

Apresentamos neste blog, que tem como objetivo fazer um registro da produção literária no Amapá,  o professor e escritor Marven J. Franklin, que reside no município de Oiapoque e é funcionário público municipal. 

Nossa intenção é  sempre contribuir com os alunos e professores que buscam conhecer os autores e as obras produzidas aqui no Amapá, tanto as contemporâneas como os poetas da Primeira Geração dos anos 60 que se imortalizaram através da antologia "Modernos Poetas do Amapá". 

Seja bem-vindo, Caro Confrade!



"Meu nome é Marven J. Franklin, paraense de nascimento, mas resido em Oiapoque-AP, extremo norte do Amapá, fronteira com a Guiana Francesa. Sou professor da Rede Pública Municipal, desenvolvendo minhas atividades na Secretaria Municipal de Educação de Oiapoque (SEMED). Sou  formado em Educação Física pela Universidade de Brasília (UNB)  e pós-graduado em Educação Física Escolar pela Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro. Já publiquei no Overmundo e Recanto das letras e em meu recente blog pessoal:



 Procuro em minha prosa poética retratar o cotidiano de Oiapoque, com suas belezas e suas mazelas sociais, além de reminiscência de Macapá, cidade que nutro um grande carinho, pois a visito  com regularidade devido aos cursos e qualificações que faz nessa capital".


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TEXTOS DE MARVEN


ESPÓLIO DA MEMÓRIA INACABADA


Das manhãs glaciais em frente ao rio Oiapoque leguei o vislumbre insano diante do nevoeiro indolente imergindo da mata culminando com o embate de meu semblante esquálido com o por do sol que insurgia inerme em frente à Marripá Tour.
Dos contornos metafísicos da praça Ecildo Crescêncio levei as antemanhãs gris que amortalhavam meus delírios e rezas enquanto ascendia a Presidente Kennedy com destino a Igreja de Nossa Senhora das Graças.
Dos desvalidos escorados no Cais Municipal, imersos em escárnios e frenesis, herdei os ais dolorosos perante a náusea que precipitava a extenuação ante aos olhares densos dos que pereciam embebecidos de rum e impassibilidade.
Oh Oiapoque! De meus medos... Levo de ti o cerrar de dente oriundo dos injustiçados, que sucumbem no leito sereno do Rio Oiapoque onde em meio ao medo e a desesperança ouve-se o berro adormecido dos garimpos equidistante com ensejos mortos parecidos com o quase nada.
Oh Oiapoque! De minhas esperanças... Espero de ti girassóis caudalosos... A enfeitar vitrines e janelas adormecidas! Que seus homens se tonem mel ante a brutalidade das sensações desumanas e que meu triste semblante se torne riso alucinante diante de uma rua assoalhada de fés!

Oiapoque querido, nunca mais poderia retirai-vos do meu coração!
Marven J. Franklin
Aos que comigo trazem essa cidade-mistério encravada como tatuagem na alma! Ave! Oiapoque.

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CREPÚSCULO DEFRONTE O RIO

Em Oiapoque o crepúsculo tem semiesferas de girassóis descolorados que transformam a cidade em cemitérios de sensações indescritíveis.

Invariavelmente lá pelas seis da tarde o sentido de perda de luminosidade traceja e forma desmesurados tsunamis nas águas afáveis do Rio Oiapoque.
Logo, as percepções mortas brotam como esquálidas caravelas de papel celofane.
De imediato a indiferença se posta dissertas em minha varanda armada com garras potentes de titânio e funda garganta de nuvens fenecidas.
Lá pelas 19h, posso ouvir os rumores mórbidos que chegam com o temporal que se arma cinzento por trás do aeroporto, são os gritos que ressoam dos garimpos... Clamores cavos dos injustiçados perecendo de frio debaixo do acaso.
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REMINISCÊNCIAS

De Oiapoque recordo o verde sonolento defronte a cidade. A neblina branca que invariavelmente cerrava fileiras em torno dos meus medos e de meu rosto esquálido embebecido de rum e marasmo percorrendo a Norberto Pennafort com destino ao Nova Esperança.

De Oiapoque recordo as secretas tardes junto ao cais onde contíguos contemplávamos os movimentos da água do rio, junto a anoiteceres de densas antemanhãs, seguindo as rotas de aleatórias catraias de papel, naufragadas em dias suntuosos e intensos de abril.

Oh Oiapoque ainda vislumbro seu eco enquanto a névoa flutua nas matas que rangem de saudade ouvindo os gritos dos garimpos, as aves Marias vindas Igreja de Nossa Senhora das Graças e o ranger mórbido do portão do Cemitério Municipal.

Oh Oiapoque ainda escuto de ti os lentos rumores de água entre sereias, filhas de Zeus e Deméter desaparecidas no Marripá. Recordo o peso intransitável das sombras que invariavelmente nos fins das tardes mornas de domingo o tempo arrastava de mim o viço, a sorte e os tesouros.

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Contatos com o autor:

http://marvenfranklin.blogspot.com.br/

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Marven Junius Franklin


30 de abr de 2015

O LEGADO VALIOSO DE UM HOMEM DE BEM


Matéria atualizada em 30 de abril de 2015

MORRE EM FORTALEZA 

ELFREDO TÁVORA GONÇALVES


O Amapá perde mais um grande pioneiro, integrante da Associação Amapaense de Escritores - Apes. Aos 93 anos, muito lúcido e ativo, Elfredo Távora ainda teve tempo de finalizar mais uma obra: "O Amapá de Outrora", cuja editoração está em andamento e certamente em breve haverá a publicação. 
Tive o imenso privilégio de acompanhar a finalização da obra junto ao autor e sua esposa, Dona Darcy. Tivemos várias reuniões, e ele estava bastante entusiasmado para publicar mais esse trabalho. Mostrou-me as fotos, explicou-me alguns tópicos da obra onde defende algumas ideias sobre o Projeto Icomi e descreve com maestria as riquezas potenciais do Amapá.
Elfredo Távora deixa seu nome em destaque na história do Amapá, tanto através de suas atividades como jornalista como de servidor público, pois exerceu alguns cargos relevantes na administração pública. E, através dos dois livros, seu testemunho é indispensável para que os historiadores interpretem muitos acontecimentos da nossa História.
Nascido em 14 de janeiro de 1922, em Belém-PA, o Sr. Elfredo faleceu em Fortaleza - CE, no dia 30 de abril de 2015, após mais de 20 dias de internação. Seu corpo foi sepultado no dia 1º de maio no Cemitério de N. S. da Conceição em Macapá - AP.
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O professor Nilson Montorial de Araújo registrou este depoimento que traça um pouco das atividades jornalísticas de Elfredo Távora:

"PERSISTÊNCIA JORNALÍSTICA
Antes do surgimento do jornal "A FOLHA DO POVO", Elfredo Távora Gonçalves e alguns amigos que integravam o Partido Trabalhista Brasileiro-PTB, fizeram circular, em Macapá, um periódico intitulado “O Combatente”. Impresso em Belém, haja vista que aqui existia apenas a gráfica do Jornal Amapá, órgão oficial do governo, "O Combatente" agradou em cheio os leitores macapaenses, que não conseguiam mais suportar tanta propaganda governamental e ver o Amapá estagnado. A publicação de um artigo escrito pelo responsável em levar as matérias para Belém, que se dizia jornalista, criou um sério problema com uma autoridade. O artigo tratava de um fato, mas não mencionava o nome de ninguém. Mesmo assim, o periódico foi impedido de circular. O desprendimento de Elfredo Távora e demais companheiros de lutas oposicionistas, tornou realidade o lançamento de um jornal feito em Macapá. O primeiro número circulou no dia 28 de maio de 1959, com o titulo de "Folha do Povo". A sede ficava na Av. Presidente Vargas, entre as Ruas Cândido Mendes e Independência, em frente à Casa Leão do Norte. O estado do imóvel era relativamente precário devido a sua estrutura ser de taipa. Elfredo Távora era o diretor responsável e Amaury Farias o redator. O Território do Amapá era governado por Pauxy Nunes, que não dava refresco para seus adversários. Por diversas vezes o prédio foi invadido à noite e danos foram causados, mas sem impedir que o jornal circulasse. Em uma ocasião, o operário Osmar Pelaes, que hoje é professor, foi esfaqueado por indivíduo que servia de capanga para os governantes. Operado no Hospital Geral de Macapá, nosso amigo Osmar escapou da morte. A "Folha do Povo” circulou até o final de 1964." (Texto de Nilson Montoril de Araújo)
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O jornalista João Silva fala sobre ele:
"No jornalismo e na política, foi diretor de A Folha do Povo, militante do PTB, e militante da oposição histórica aos Nunes no Amapá. No serviço público assumiu cargos importantes, entre outros, foi prefeito, secretario de governo, diretor do Senar, e chefe de gabinete do governador Jorge Nova da Costa. Nas letras, lançou, em 2011, seu livro de memórias intitulado Folhas Soltas do meu Alfarrábio. "
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Para Cesar Bernardo de Souza: "Vou pranteá-lo com muito respeito e honra... um dos maiores homens que conheci."

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Para o jornalista Euclides Moraes, "Elfredo Távora está imortalizado nos anais da história do Amapá. Um dos líderes da primeira confraria de lutas pela democracia no Estado, digo, antigo Território Federal do Amapá. Com ele estavam Amauri Farias, Binga Uchôa, Zito Moraes, Zeca Serra, Duca Serra e tantos outros que me desculpem a omissão. Foram fundadores do primeiro jornal de oposição à elite dominante, a Folha do Povo. E com esses mesmos bravos fundou o Partido Trabalhista Brasileiro, de Getúlio Vargas. Elfredo Távora deixou para as gerações que o sucederam uma grande lição. A de que vale a pena lutar pela Democracia. Boa viagem, amigo."
-------------------------------------------------------------------------------- Para a professora e historiadora Maura Leal 
“O guardião da memória do PTB, como costumava chamar o Sr. Elfredo Távora, tombou hoje, mas nunca jamais sua linda e iluminada história, grande parte dedicada à construção do Amapá. Nos anos 40 fundou, junto com outras personalidades políticas de relevo, mais que um partido e desafiou a ordem instituída ao fazer a difícil escolha de ser oposição em pleno período de implantação do Território do Amapá. Sua luta foi árdua em nome da construção de um espaço político plural e democrático. Tive a grata honra de ouvi-lo contar essa história, de revisar seu segundo livro (em fase de publicação). Era um narrador brilhante e com uma memória invejável, guardião de um acervo valioso e muito bem cuidado. Sei que talvez jamais encontre um narrador como ele nas minhas andanças como pesquisadora. Mas bom mesmo foi poder ter tido mais do que esperava dele, sua preciosa amizade. Meu coração chora de saudade e tristeza, mas sei que ele parte deixando um legado enorme para história desse Estado e para sua linda família. Descanse em paz, amigo, nos braços do Senhor, ao lado dos seus.”
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O autor, esposa e filhos (foto superior)
Abaixo, fotos do lançamento da obra
em 10/02/2011
no pátio do Cine João XXII (Macapá-AP)

Aos 89 anos, Elfredo Távora Gonsalves decidiu publicar um livro denominado sabiamente de Folhas soltas do meu alfarrábio - um livro para meus filhos. Observem só a sua humildade em designar uma obra escrita com tanto carinho paternal – e aí se sobrepõe o paternalismo, respectivamente literário, de que um livro é como filho, e o paternalismo genealógico, mistura de sangue, história, tradição e outros componentes do complexo familiar, tão preponderante naqueles que se orgulham de suas origens e preservam a memória dos ancestrais.


Nascido em Belém do Pará no dia 14 de janeiro de 1922, em plena época do Modernismo brasileiro, quando os artistas e intelectuais se reuniam em São Paulo para desafiar os cânones estabelecidos na cultura brasileira, Elfredo Távora, um dos filhos do negociante português George Mayer Gonsalves nascido no Brasil, tem muitas histórias para relatar. E o fez de um ponto de vista sentimental. Mas esse viés, longe de limitar seu trabalho, torna-o peça-chave para que se entenda a trajetória de uma família de emigrantes portugueses que se estabeleceu no Norte do Brasil nas primeiras décadas do século XX. E não podemos deixar de relembrar que seu ancestral, Alfredo Gonsalves, em 1932 também publicou um belo e raro livro: Verdadeiro Eldorado, em que relata suas andanças pela Amazônia, especialmente na região do Amapá, onde as famílias Távora e Gonsalves estabeleceram seus negócios e formaram as famílias. Portanto, as duas obras, publicadas num intervalo de 79 anos, constituem-se em dois documentos preciosos de cidadãos que verdadeiramente amaram esta parte do Brasil por vezes tão negligenciada pela historiografia oficial.


Elfredo Távora é uma testemunha viva da história do Território do Amapá desde a sua criação, em 1943, quando tinha apenas 21 anos, até os dias atuais do século XXI. Sua trajetória pública foi moldada por um caráter forjado na formação que recebeu ao longo da vida, em que os valores morais são sustentáculos vitais que orientam as ações em todos os sentidos. Por isso, nas páginas que escreveu, além de rememorar alguns episódios pessoais, ele analisa sua participação na vida política do Amapá, através das lides no antigo PTB e contextualiza os episódios locais com a situação nacional. Corajoso, firme em suas convicções, jamais abriu mão de suas ideias e do senso de liberalismo e ética que nortearam sua atuação e que foram sempre reconhecidos por todos. A Folha do Povo, jornal que circulou no período de 1959 a 1964, se contrapunha à liderança de Janary Nunes e seus sectários, denunciando irregularidades do governo. O saudoso Amaury Farias, seu companheiro de lutas, no livro Meus Momentos Políticos, relatou com minúcias as dificuldades de naquela época imprimir e distribuir um jornal sem qualquer tipo de apoio e sob a constante vigilância policial e de como era quase impossível lançar-se uma candidatura oposicionaista. Episódios como esse engrandecem o verdadeiro espírito de luta e idealismo que norteou aquela geração de jovens que sempre almejavam o melhor para esta região brasileira, cujos governos nomeados quase sempre não atendiam aos verdadeiros anseios da população.
Este livro, vale lembrar, é mais um repositório que servirá de roteiro e de fonte de dados para os historiadores, que ainda coletam informações para que se possa escrever parte considerável e relevante da história do Amapá.


Texto:
Paulo Tarso Barros
http://twitter.com/paulotbarros
http://paulo.tarso.blog.uol.com.br/
http://paulo.tarso.sites.uol.com.br/

Fac-símile do autógrafo
que recebi do
Sr. Elfredo Távora em 11/02/2011





BIOGRAFIA DE ELFREDO TÁVAORA

ELFREDO FELIX TÁVORA GONSALVES, filho do Tenente Coronel George Meyer Gonsalves, comandante de Marinha mercante, brasileiro naturalizado, comerciante e proprietário, de grandes seringais no rio Araguari e de D. Hildebranda Távora Gonsalves, cearense de Baturité, filha do Coronel João Franklin Távora, pecuarista, de grandes posses e 1.° Intendente do Município de Amapá, Nasceu em Belém, Estado do Pará, a 14 de janeiro de 1922. Estava com 10 meses de idade quando seu pai faleceu repentinamente, obrigando sua mãe a viajar com seus cinco irmãos para Ilha da Madeira, em Portugal onde seu pai tinha posses, permanecendo ai até aos 20 anos de idade, quando regressou ao Brasil, dedicando-se à exploração dos seringais da família, chegando ao Amapá a 13 de maio de 1943, quando ainda era Município do Pará. Após a criação do Território do Amapá, conheceu o então capitão Janary Gentil Nunes que havia sido nomeado Governador, a quem ofereceu um exemplar do livro "Verdadeiro Eldorado" escrito no ano de 1932, impresso na cidade do Porto, em Portugal por seu tio, o português Alfredo Gonsalves. Até o ano, de 1945 manteve boas relações com o governador do Amapá, mas quando lhe escreveu uma carta relatando fatos que considerava violentos praticados pelo Chefe de Polícia, capitão Humberto Vasconcelos, enquanto S.Exª. se encontrava no Rio de Janeiro, tudo isso mudou, porque: O Governador não deu importância às denúncias e respondeu-lhe com um telegrama agressivo: a partir desse momento começaram as hostilidades por parte do Chefe de Polícia e seus colaboradores. A euforia dos primeiros dois anos de governo começou a esfriar e surgiram os desentendimentos, resultando no afastamento do Dr. Otávio Mendonça, Diretor da Divisão de Educação. Depois foi a briga entre o Chefe de Gabinete, Dr. Paulo Eleutério Filho e o capitão Vasconcelos, atrito esse que mais tarde se acentuou quando ambos militavam na política de Belém, acabando em assassínio de Paulo Eleutério pelo seu oponente. Elfredo Távora criticava abertamente o regime paternalista adotado pelo governo. Surgiu então um manifesto na cidade, atribuído ao amapaense José Serra e Silva, extraordinária figura humana, o qual terminava com o slogan "a terra aos filhos da terra". Esses movimentos foram-se polarizando e acabaram em aglutinação de caráter político, tendo à frente Claudomiro Morais, Benedito da Costa Uchôa, Aurino, ltuassu Borges Oliveira, Aurélio Laranjeira, Jóca Furtado, Antero Furtado, Jeronimo Picanço em Macapá, Américo Saraiva, Chico Távora, Adelino Gurjão, Miguel Monteiro, Quintino Pontes, Horácio Alves e outros, convidados por Elfredo, fundaram o Trabalhista Brasileiro, no TFA, instalado na cidade de Amapá, a 26 de dezembro de 1946. Pressionado pelos homens do governo, fugiu de Macapá, permanecendo alguns meses em Belém, trabalhando na Companhia Telefônica e mantendo estreito relacionamento com a cúpula do PTB, ganhando a simpatia dos dirigentes, principalmente do Deputado Baeta Neves, Senadores Salgado Filho, Ivete Vargas e outros. Em 1950 foi para as ruas fazer a campanha de Getúlio Vargas para a Presidência da República e conseguiu do candidato uma mensagem especial ao povo do Amapá, que foi gravada no Hotel em Belém e transmitida pela Rádio Clube do Pará. Por estranha coincidência, na hora da transmissão, faltou energia em Macapá. Com a eleição do Getúlio Vargas, por força de um acordo político imposto pelo Presidente do PTB, o governo do Amapá nomeou Elfredo Távora para o cargo do Diretor da Divisão de Terras e Colonização. Com a morte de Getúlio Vargas, Elfredo foi entregar o cargo que ocupava, justificando que o acordo político era com o Presidente e esse estava morto. Voltou para oposição e nela se manteve até 1960. Casou-se com D. Maria Darcy Colares, filha do fazendeiro Ernesto Pereira Colares, do Município de Amapá, no ano de 1955, e foi residir em Porto Grande, dedicando-se à exploração agrícola de sua propriedade onde auferia recursos com o arrendamento de seus seringais. Mais tarde, contratado pelo empresário Waldemiro Gomes, foi residir as margens do rio Amapari, próximo à foz do rio Cupixizinho (igarapé dos índios), dedicando-se à compra do minério de cassiterita, Não perdeu o contato com os companheiros de partido e, em 1959, lançou o jornal "Combate" junto com Mário Luiz Barata, Dalton Cordeiro de Lima, Amaury Guimarães Farias, Raimundo Maia, José Araguarino Mont'Alverne, o qual teve duração efêmera. No mesmo ano fundou o semanário "Folha do Povo", assumindo a Direção de toda acompanha oposicionista durante os anos de 59 a 64. Com a chegada do Governador Luiz Mendes da Silva, foi nomeado para o cargo de Diretor da Divisão de Produção, permanecendo até 1967. Elfredo assumiu diversos cargos, citando-se, pela ordem cronológica; Presidente do Diretório Regional do PTB do Amapá; Diretor da Divisão de Terras e colonização; Diretor da Divisão de Produção; Presidente. da ARENA em Macapá; Chefe de Pessoal da ECICEL; Secretário executivo da Cooperativa do BNCC em Brasília. No ano de 1985, convidado pelo Governador Jorge Nova da Costa, assumiu a Chefia do Gabinete, permanecendo até o término do governo, sendo mantido no governo do Coronel Boucinha. Exerceu ainda os cargos de Presidente do Conselho Territorial; Superintendente da SENAVA e Representante do Amapá no Instituto de Altos Estudos da Amazônia. Aposentou-se em 1990 e, com 75 anos de idade, exerceu o cargo de Superintendente do SENAR em Macapá, desempenhando um excelente trabalho. É um dos homens ilustres do Estado do Amapá.

Fonte desta biografia: Personagens Ilustres do Amapá - Vol 1, de Coaracy Sobreira Barbosa - Imprensa Oficial - 1997





18 de mar de 2015

BLOG DA ALCINÉA DESTACA AUTORES DO AMAPÁ

Poeta em destaque – Paulo Tarso Barros

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 17/03/15 as 11:24 pm
tarsoPaulo Tarso Barros
Poesia? Vivo-a em mim
No mundo
No silêncio denso e quieto
No subterrâneo da alma:
Intensamente sozinho.
Ele vive cercado de livros. Começou a escrever aos 13 anos.  Aos 14 anos seus poemas já eram publicados nos jornais maranhenses. “O espanto, a solidão e a inquietude da infância, a vivência em meio a um ambiente de muitas belezas à beira rio que ficava atrás da minha casa, os imensos quintais cheios de fruteiras dos meus pais e avós, tudo isso me empurrou para as letras e para viagens incríveis da imaginação e da fantasia”, conta. Isso era lá em Vitória do Mearim – MA, onde nasceu em 1961. Está radicado no Amapá desde 1980.
Um rio que anoitece,
um rio que amanhece
e, envolto em brumas,
deságua em boqueirões
e nos sumidouros do mar…
Os primeiros livros e revistinhas em quadrinhos, como Zorro, Batman, Tarzan, ganhou da avó materna, dona Venância Bogéa e Silva, leitora inveterada que sabia de cor os poemas de Castro Alves e Gonçalves Dias.
Paulo Tarso escreve muito. Já publicou mais de dez livros de poemas, contos, romances, cordel e tem outros prontinhos para publicar. Escritor premiado, está em 13 antologias, não só do Amapá, mas de outros estados.
Até os anos 90 escrevia diariamente em cadernos e folhas soltas. Hoje raramente escreve à mão. Faz tudo no computador. E já não escreve todos os dias. “Fui diminuindo o ritmo e passando a dedicar meu tempo livre para as leituras, o que faço regularmente”, diz. Mesmo assim tem cinco livros inéditos de contos, poemas, crônicas e artigos, além de dois  de cordel e um compêndio literário quase pronto.
Entre mim e o poema,
sangram vocábulos esquecidos
nos escaninhos vazios….
E ainda tem tempo para ajudar os autores que querem publicar. Paulo Tarso está sempre pronto para ajudar os confrades. “Sempre considerei os demais colegas de Letras confrades, irmãos de sonhos e utopias”, revela. E isso ninguém pode negar. Ele revisa os textos dos colegas, faz a formatação dos livros, faz prefácio, acompanha a impressão na gráfica… faz tudo que pode para ver publicados os livros dos seus irmãos de sonhos.
“Eu tomei gosto tarso1por editoração, até por necessidade, pois não temos editoras e são poucos os profissionais na área por isso também tenho atuado como editor de muitas obras. Muito me orgulho desse privilégio de participar há vários anos da luta dos autores do Amapá e também da minha terra natal contribuindo com a edição de suas obras.”
Pergunto se ele tem manias. E ele responde: “Muitas”.
Peço que ele me conte algumas. E ele me diz: “Tenho o costume de datar tudo o que escrevo, de ler vários livros ao mesmo tempo, fotografar amigos, familiares, paisagens (sou fascinado por fotos antigas), de comprar canetas, lápis 5 e 6B, marcadores e caderninhos, além de ferramentas diversas, que mantenho sempre ao meu alcance para os pequenos trabalhos; lâmpadas e sempre uso as bandeirinhas do Amapá, Maranhão e do Brasil no painel do meu carro!”.
Entre mim e o poema,
a carne sangra sua alma…
E a alma, arcabouço silente de mim,
dissolve no silêncio seus vocábulos
e apaga das páginas minhas súplicas…
Entre o poema e o vazio,
há um turbilhão de silêncios
e uma revoada de nenhuns…
Entre mim e o poema,
sangram vocábulos esquecidos
nos escaninhos vazios….
PAULO TARSO Silva BARROS é natural de Vitória do Mearim – MA, nasceu no dia 29/08/1961 e desde 1980 é radicado no Amapá, filho de Miriam Bogéa e Silva e Euzemar dos Santos Barros. Professor comos cursos de Pós-Graduação em Letras: Português e Literatura pelas Faculdades Integradas de Jacarepaguá – FIJ (2009) e Licenciatura Plena em Letras pela Unifap (1995), casado, duas filhas, já ganhou prêmios literários e publicou diversos livros, centenas de crônicas e artigos na imprensa do Amapá, Pará, Maranhão, São Paulo, Pará e Rio de Janeiro. Fez editoração de mais de quarenta obras. É integrante da Academia Arariense-vitoriense de Letras (AVL), da União Brasileira de Escritores (UBE – São Paulo) e da Associação Amapaense de Escritores-APES (www.escritoresap.blogspot.com.br) e foi membro do Júri Nacional do Prêmio Multicultural O Estadão, de São Paulo; do Conselho Estadual de Cultura e do Conselho Diretor da Fundação Estadual de Cultura do Amapá-Fundecap e chefe da Divisão de Editoração da referida Fundação, além de ter dirigido a Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda, onde atualmente exerce suas funções. É funcionário da Secretaria de Estado da Educação do Governo do Amapá.
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Fonte desta Postagem: 

http://www.alcinea.com/poetas-do-amapa/poeta-em-destaque-paulo-tarso-barros

8 de fev de 2015

PROFESSOR ANTÔNIO MUNHOZ: CIDADÃO DO MUNDO - HOMENAGENS, FOTOS & CARTAS

Nota do editor:
Matéria republicada, atualizada, com acréscimo de texto e fotos.



Portanto, em comemoração ao aniversário do querido mestre, que ocorre no dia 10 de fevereiro, estamos publicando várias homenagens neste espaço do blog Literatura no Amapá, que ficará em permanente atualização para saudar tão ilustre personagem.


Publicamos abaixo a belíssima carta-poema que o nosso confrade Benedito de Queiroz Alcântara escreveu sobre o professor Munhoz, ao mesmo tempo em que republicamos uma postagem que fizemos anteriormente, também em homenagem ao nosso Mestre. Tudo isso para registrar e externar a nossa gratidão a esse ser humano tão especial.



ANTES QUE EXPULSEM DA SALA 
A MEMÓRIA DA GRATIDÃO
 

CARÍSSIMO PROFESSOR MUNHOZ,

Antes que minha memória seja abduzida para um poço sem fim
Antes que meu coração seja empedrado pelas fúteis vaidades
Antes que minha língua endureça num silêncio forjado
Antes que revisem minha trajetória existencial
Antes que meus olhos não possam mais te identificar
Antes que arranquem meus braços, minhas mãos, meu ...
sorriso.

Antes que não possas mais caminhar silenciosamente pelas ruas de Macapá






Prof. Munhoz caminhando sobre a calçada da residência governamental,
no Centro de Macapá. Maio/2011. Foto: Paulo Tarso Barros





Antes que não possas mais adentrar nas liturgias da Catedral de S. José
Antes que não possas mais proclamar as crônicas das tuas andanças
Antes que não possas mais comentar e questionar a vida humana
Antes que não possas mais explodir em saborosas gargalhadas
Antes que não possas mais banquetear-se com nossas comidas típicas.

Antes que te expulsem de qualquer sala
Antes que te esqueçam hipocritamente em uma solenidade
Antes que te forcem a voltar para a terra paraoara
Antes que tirem da lista de convidados de uma formatura
Antes que te olvidem dos eventos culturais
Antes que te chamem de ultrapassado e fora de moda.

Antes que...
Antes de tudo isso...

Permita professor querido, proclamar ao mundo, deixar registrado, como testemunho sincero de um ex-aluno do tempo do Colégio Amapaense, anos 1977-1978-1979, hoje um ser calejado, com filhos e trajetórias, professor de cada dia, agradecer imensamente porque Deus permitiu que um anjo seu viesse em nosso auxílio, deixar indeléveis marcas em nosso caráter, em nossa formação, em nossa visão de mundo e sociedade.

Quero testemunhar que, se hoje estou em sala, foi por causa sim de sua impetuosidade em nos ensinar a Língua Portuguesa e Literatura, como uma verdadeira viagem pelos quatro cantos do mundo, levando-me, imberbe jovem, a optar pela cátedra de história, com o sonho de trilhar as veredas dos lugares e adentrar nas facetas humanas de cada paragem.

Terno Mestre, não tinha como faltar às suas aulas, não tinha como não aproveitar cada minuto, não tinha como estudar por estudar, pois nos atiçavas para abraçar as aventuras da vida que a maturidade nos reservava.

No tosco espaço da sala de aula, ciceroneaste nossa curiosidade pelos diversos países, seduzindo-nos para os continentes, os povos e seus costumes, tudo aquilo que de mais belo e singelo o ser humano é capaz de construir.

Enfim, lá fomos nós para o chamado nível superior, sem cursinhos ou meros desafios, apenas com o que comemos e bebemos contigo e outros mestres. Era hora de partir, deixar a terrinha, deixar a família, adentrar nos mares nunca dantes navegados (por nós), não mais como expectadores e sim como atores principais.

Atravessei o Brasil, para o Sul distante e diferente. Depois para o Rio de Janeiro, dantesco e acolhedor. Mais tarde para a América Central, na Nicarágua querida. Até que, com a morte do meu pai Leandro, lá estava em missão por El Salvador e Guatemala, entre os fuzis e helicópteros da guerra maldita, larguei tudo e voltei para os meus, mais precisamente para ficar com minha mãezinha Maria até os seus últimos dias.

E por aqui fiquei, casei, vieram os filhos, sempre estudando, sempre peregrinando em sala de aula, envolvido em tantas atividades. E com o privilégio de te encontrar, na maioria das vezes, em nossas ruas e avenidas. E lá ficávamos a conversar, com o tempo parando para nós e correndo para quem nos acompanhava.

Assim vamos atravessando os sertões de nossas existências, eu também já trazendo meus cabelos brancos, que um dia espero que fiquem como os seus : cálidos e misteriosos.

Permaneço com a tenacidade de a cada dia adentrar nas salas de aula, desde a 5ª série até o Ensino Superior. E sempre, sempre, a cada ano, a cada período letivo, citar teu nome para os que hoje me chamam de professor. Recordando cada aula, cada narrativa de suas viagens, cada comentário, que se alojaram dentro de meu coração e que lá permanecerão ad aeternum.

Professor querido, em nome de toda a minha família de irmãos e irmãs que também foram teus alunos, em nome de todos os colegas de todas as turmas do “Colégio Padrão”, quero externar nosso sincero e singelo agradecimento por teres adentrado em nossa formação, em nossas vidas.

Professor querido, valeu e vale demais saber que tu vieste e permaneceste no meio de nós, desde ontem e para sempre, franciscanamente único-total-puro-universal. Tão absorto em suas meditações, tão generoso em suas reflexões, tão de tantos rostos e lugares e, maravilhosamente, tão nosso !

Neste dia, dedicado ao professor, antes que tudo desapareça ou desabe, ou que tudo possa ser mudado e esquecido, que eu possa registrar e proclamar, ao Mestre, com carinho, ao querido Professor Antônio Munhoz Lopes : VALEU !

Macapá, 15 de Outubro de 2008.



Benedito Queiroz Alcântara

Benedito de Queiroz Alcântara


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PROFESSOR MUNHOZ: 80 ANOS DE VIDA - 53 ANOS DEDICADOS AO AMAPÁ (*)

Professor Munhoz e quadro com sua fotografia na juventude
Foto: Paulo Tarso Barros/2012

Antônio Munhoz Lópes nasceu no dia 10 de fevereiro de 1932, em Belém-PA. Filho de José Ayres Lópes e Izabel Munhoz Lópes. Chegou a cursar filosofia, foi seminarista, mas acabou bacharelando-se em Direito. Chegou ao Amapá em 1959 e ingressou no funcionalismo do Território, ocupando o cargo de delegado no antigo DOPS. Porém, como escreveu o cônego Ápio Campos no jornal A Província do Pará, Munhoz emprestou à pacata segurança pública da época "um clima de cenáculo literário". Mas foi a partir de 1960 que ele deu início a uma das mais profícuas e brilhantes carreiras do magistério do antigo Território, sendo hoje reconhecido como mestre de várias gerações de ilustres figuras de destaque do Amapá.

Antônio Munhoz Lópes exerceu inúmeros cargos e funções importantes, sempre se destacando pela inteligência, a sensibilidade e o carisma. Até hoje é o nosso maior epistológrafo, pois se corresponde pelo velho e bom Correio com pessoas do mundo inteiro. Anualmente, o professor Munhoz faz uma viagem internacional e visita museus, igrejas, monumentos históricos. Foi assim que adquiriu uma cultura humanística invejável. Tornou-se um verdadeiro globe-trotter, cujas memórias há muito são aguardadas por todos nós.
 
Professor Munhoz com o Governador Camilo Capiberibe e o
escritor Paulo Tarso Barros na residência governamental - Março/2012


Felizmente, o professor Munhoz tem recebido, em vida, todo o carinho e reconhecimento pelo seu desempenho magistral em todas as funções públicas que exerceu, principalmente como educador e incentivador das Letras e das Artes. Por muitos anos foi membro do Conselho de Cultura, debatendo e formulando ideias, sugerindo ações por parte dos gestores culturais. É um dos mais assíduos frequentadores de eventos artísticos e culturais, ao lado da sua amiga, a professora Zaide Soledade.

A figura simpática e respeitável do professor Munhoz já faz parte da paisagem urbana do Centro de Macapá, em suas caminhadas diárias visitando a Biblioteca, Confraria Tucuju, livrarias, bancas de jornais, agência dos Correios (onde possui uma das mais antigas caixas postais!).


Como o mais globalizado dos pioneiros do Amapá, conhece muitos países e culturas, pois é um incansável visitador de museus, monumentos históricos, igrejas, teatros, restaurante e locais históricos. Seu acervo fotográfico se constitui no mais relevante arquivo que registra sua peregrinação cultural que tanto o estimula a cultivar os valores humanos e cristãos. Para mim, Munhoz é o exemplo maior de um cidadão que dedicou sua vida para usufruir da Arte e da Cultura e de tudo de bom que advém dessa escolha tão inteligente.
Minha primeira foto com o Mestre (1986) na
Escola de Música Walkíria Lima durante o
lançamento de meu livro "Poemas de Aço"

(*) Artigo publicado quando o professor completou 80 anos
Texto: Paulo Tarso Barros - http://twitter.com/paulotbarros













Abaixo, o poema que 
Alcy Araújo dedicou ao Mestre:

JARDIM, PODE 




(Ao cidadão do mundo Antônio Munhoz)



Como tenho sido pisado
espezinhado, espinhado, repisado
pela vida, pelos desencantos
e desesperos, angústias, desamores.



Canto a terra
a dor dos aflitos
e a inútil esperança dos desesperançados
também os negros, os índios e o verde
e presto relevantes serviços topográficos
demarcando itinerários de poesia




Quando eu morrer
alguma vereador
que leu ou sentiu meu verso
que sabe ou ouviu falar do meu cantar
apresentará projeto de lei
para que eu vire beco, rua ou avenida



Não quero esta homenagem
Recuso até ser praça
alameda, assim também parque ou estrada
Quero ser um teatro
um obelisco, uma escola
Academia, também não.


Rua, avenida, beco, não quero não
Não quero que continuem pisando em mim.
Pisar em mim,
só se eu virar jardim.




Leia a biografia completa do professor Munhoz baixando a obra "Personagens Ilustres do Amapá", de Coaracy Barbosa. Clique aqui para baixar







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O ano de 2012 foi escolhido pela Secretraria de Estado da Educação para homenagear o professor Munhoz. Dentre as muitas homenagens, destacamos a Aula Magna que ele ministrou no auditório do Juseu Sacaca no dia 11 de dezembro de 2012.
Abaixo, publicamos um texto do professor (e ex-alno do Munhoz) Paulo de Tarso Gurgel, que faz um roteiro do que foi a preleção do mestre nessa noite memorável, que aqui vai registrada através das fotografias.

ANTÔNIO MUNHOZ LOPES UMA DECLARAÇÃO DE AMOR AO AMAPÁ
Colégio Amapaense. O ano pode ser 1968, 69, 70, 71, 72, 73, 74. Toca a primeira campainha. Apressados todos os alunos sobem as escadarias do famoso Colégio Padrão. Sentados, aguardamos o Mestre. Toca a segunda campainha às 18h30. Britanicamente, ele entra em sala, sorridente e saúda a todos com um suave boa noite. Deve ser a segunda quinzena d...
e dezembro. Antônio Munhoz Lopes, titular da cadeira das disciplinas Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira do tradicional Colégio Amapaense, logo, ele é o catedrático. Inicia, então, mais uma de suas brilhantes aulas àqueles estudantes ali presentes. Com um olhar quase 43 (naquela época ainda não existia o meu olhar 43), observa como sempre uma carteira vazia, notadamente, o seu “dono” ainda não chegara.

E assim o mestre inicia a aula: – “Caríssimos alunos, na próxima semana faremos a nossa prova final. Os senhores e senhoras estão concluindo o 3° ano científico ou 3° colegial. Muito bem. Então, a nossa prova abordará os temas, as matérias que trabalhamos durante esses três anos. [O mestre faz que não escuta os murmúrios: “essa não”, “de novo”, “era só o que me faltava”, “isso eu já sei de cor e salteado”]. E isto vai muito ajudá-los nas provas dos vestibulares que vocês farão em Belém, para a Universidade Federal do Pará e, vocês amapaenses sempre abiscoitaram as vagas oferecidas naquelas instituições: a UFPA e FCAP- Faculdade de Ciências Agrárias do Pará.

– Lembremos: No 1° ano estudamos as origens históricas da Literatura Portuguesa, a língua portuguesa, esta uma língua neolatina como o espanhol, o italiano, o romeno dentre outras. O primeiro documento literário português escrito é a célebre “Cantiga da Ribeirinha” de Paio Caldeirós. Não esqueçamos do grande poema épico português de todos os tempos que é “Os Lusíadas” [Aí o mestre interroga e a plateia atenta responde: Luís Vaz de Camões] Continuando meus estimados alunos, [nisto chega o dono daquela carteira vazia – adivinhem – Rodolfo dos Santos Juarez e, como sempre, levou um belo “ralho”], não poderia neste momento de fazer, melhor dizendo trazer para os senhores, a titulo de colaboração para suas leituras complementares estas obras da Literatura Brasileira, tanto no romance como nos versos, copiem por favor, só irei pronunciar somente uma vez, então, vamos: vou tecer breves comentários sobre a obra e quanto aos autores é de vossas competências [murmúrios outra vez], Já. Valendo. Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro - plateia atenta e assopros - Joaquim Maria Machado de Assis; Vidas Secas - Graciliano Ramos; Os Sertões - Euclides da Cunha [interessante que, quando o mestre citava a obra, os nomes dos autores sussurravam baixinho entre todos os alunos]. Continuando - O Guarani, quem é o autor Rodolfo?, “hein, o quê?”... é o que dá chegares sempre atrasado, respondam pra ele e todos: José de Alencar. Ainda sobre o romancista de Messejana, Paulo Tarso Barros, você que é aluno ouvinte do Maranhão, como se inicia o romance Iracema? Prontamente o futuro poeta responde: “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”; Memórias de um Sargento de Milícias, de Manoel Antônio de Almeida; agora a obra que fala da decadência dos senhores de engenho do Nordeste, [me arvorei e falei Menino de Engenho, de Ariano Suassuna, errado; Fogo Morto de José Lins do Rego, o resto da aula fiquei calado] e uma obra que traz um Brasil que pouco conhecíamos: Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.

– Vamos, continuando, estão cansados? Não, vocês são jovens e tem toda a energia do Paredão* para vos fortalecer. Os principais poetas brasileiros: O Boca do Inferno, como era conhecido o............................. Gregório de Matos Guerra; - um poeta altamente erótico [essa palavra causava calafrios em toda a sala] – Tomás Antônio Gonzaga – o Dirceu enamorado pela jovem Marilia – Maria Dorotéia de Seixas; Gonçalves Dias, de “Os Timbiras” e da “Canção do Exílio” e Zaíde Soledade declame a 1ª estrofe, e ela, levanta-se e obedece didaticamente:

“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá.
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como as de lá.
Não permita Deus que eu morra.
Sem que eu volte para lá!”

A plateia aplaude e pede bis.

– Temos o nosso poeta dos escravos, que morreu prematuramente, aos 24 anos de idade: Antônio de Castro Alves, suas obras “Espumas Flutuantes” e “Navio Negreiros”. Não esqueçamos da grande poetisa do “Romanceiro dos Inconfidentes” – Cecilia Meirelles.

– “No meio do caminho existia uma pedra” – o genial mineiro de Itabira – Carlos Drummond de Andrade, cujo poema “E agora, José?” transformou-se num grande sucesso musical na voz de Paulo Diniz.

– Crianças, ainda estamos no começo desta nossa aula, lembrem-se que na prova de 50 questões eu faço as perguntas e vocês escrevem apenas a resposta, de preferência que ela esteja correta. Não deixemos de mencionar o poeta pernambucano, autor de “Libertinagem” – Manuel Bandeira.”

O mestre, então, começa a declamar um poema:

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

– De quem estamos falando? Qual o título desta obra?
Todos respondem: Vinícius de Moraes – So-ne-to de Fi-de-li-da-de.

– Ainda temos Jorge de Lima com “Invenção de Orfeu”!

– São 22h20, ainda temos mais dez minutos e espero que não esteja cansando os meus diletos discípulos [“que é isso professor, pode mandar brasa”, grita a plateia, doida pra ir embora, mas bastante honrada com aquela aula, podemos dizer, “magna”]. Não devemos deixar de mencionar o primeiro documento literário no Brasil, escrito por Pero Vaz de Caminha, a Carta de Caminha, narrando sobre o Descobrimento do Brasil e já trazendo os primeiros sinais do nepotismo para a vida politica brasileira, a obra magnifica do missionário das Ilhas Canárias, precisamente de Tenerife – o beato José de Anchieta, o Padre Antônio Vieira com o célebre “Sermão aos peixes”, criticando os poderosos daquela época, numa igreja em São Luís do Maranhão. Ainda existe o púlpito de onde aquele grande orador proferiu esta sua magnífica obra; um outro nome: Antônio de Santa Rita Durão, Álvares de Azevedo que recebia influencia de Lord Byron, que por sua vez influenciava o Rodolfo (sempre o Rodolfo). Vejam o Naturalismo de Aluísio de Azevedo, com O Cortiço, Casa de Pensão, O mulato O Simbolismo com Alfhonsus Guimarães. Espero não ter esquecido de João Cabral de Melo Neto com sua “Morte e Vida Severina”.

Ainda faltam 2 minutos. Na literatura paraense citemos Inglês de Sousa, Dalcídio Jurandir e Lindanor Celina. Meninos e meninas, nesta aula de encerramento deste ano letivo, espero encontrá-los, quem sabe daqui a 20, 30, 40 anos, num local bastante agradável, com a graça de Deus e a presença de todos vocês. Até lá estarei oitentão, e alguns de vocês setentões, sessentões e outros passando dos cinquenta. Reafirmo neste momento que pelo Amapá o meu coração bate mais forte, pois aqui cheguei em 1959, com 27 anos de idade, a convite do governador Pauxy Gentil Nunes, irmão de Janari e Coaracy – o Amapá era conhecido como a “terra dos Nunes”. Vim para ser delegado de Policia, mas o magistério foi a minha grande paixão e agradeço a Deus por este momento e a presença de vocês, meus caros e eternos alunos.”

O mestre aproveita para alfinetar, metaforicamente, os desmantelos da ditadura militar que governava o país, e lembra o nome do grande religioso Dom Helder Câmara, arcebispo do Recife e Olinda.

De pé os alunos aplaudem o Mestre e cantam a música “Ao mestre com carinho”

(Aula proferida no auditório do Museu Sacaca em 11.12.2012).
*Paredão – antiga cachoeira no atual município de Ferreira Gomes, cujas forças d’água serviram para construção da 1ª hidrelétrica do Norte – a Hidrelétrica do Paredão, inaugurada em 1976.


Paulo de Tarso Gurgel (ao centro) ladeado pelo
professor Munhoz e por Paulo Tarso Barros

Paulo de Tarso Gurgel
Turismólogo. Licenciatura Plena em História
Aluno do “Munhoz”, no Colégio Amapaense nos anos de 1973/74.
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Fotografias da Aula magna ocorrida em 11/12/2012 no Museu Sacaca.


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CARTAS DO PROFESSOR MUNHOZ PARA A
PROFESSORA ESTER VIRGOLINO


Publicamos abaixo, com a anuência do professor Munhoz, algumas cartas que ele escreveu a sua grande amiga e companheira de magistério a professora Ester Virgolino.

Para ler as cartas, Clique nas imagens 
para ampliá-las!

Professora Ester da Silva Virgolino - 1978 (Arquivo de João Lázaro)



















MAIS FOTOGRAFIAS DO MESTRE