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27 de ago de 2015

RUI GUILHERME - SELEÇÃO DE CONTOS




Informações sobre o autor

Romancista, contista, cronista e poeta, Rui Guilherme de Vasconcellos Souza Filho nasceu em Belém do Pará. Foi professor de língua e literatura anglo-americana e do Curso de Direito nas Universidades Federais do Pará e do Amapá.
Advogado militante no Pará, foi para o Amapá em 1991 como magistrado, onde permaneceu até a aposentadoria como juiz de direito, transferindo-se posteriormente para o Rio de Janeiro. O autor faz parte da Associação Amapaense de Escritores-Apes.

Seu romance de estreia “Leilani – Relato de uma Obsessão” recebeu da Academia Paraense de Letras o prêmio “Inglês de Sousa”, editado no Amapá pela Ed. Gráfica O Dia (1998). Lançou duas coletâneas de Contos: “Carta de Amor e de Ódio” (Belém: CEJUP, 2005) e “O Velho” (São Paulo: Scortecci, 2009. Participou das coletâneas “Contos do Desejo” – São Paulo: AMB, 2012), “Quinze Contistas da Amazônia! (Belém, UFPA), “Poetas na Linha Imaginária” e “Poesia na Boca do Rio” (Macapá/AP).
Obras em prosa de Rui Guilherme
“Rui Guilherme é magistral ao criar situações em que as personagens parecem estar ao lado ou à frente do leitor. O conto O Velho, por exemplo, nos transporta para o imaginário de saudades de um ancião aguardando resignadamente a morte, que parece o ter esquecido, pois a saudade “É, sobretudo, a falta que se sente de si mesmo”. Nostálgico e hilário, o conto é um relato sobre a solidão humana e a passagem do tempo na vida de cada um de nós, quando certos acontecimentos, mesmo aparentemente triviais, assumem amplitudes de afetar o destino”. 
(Paulo Tarso Barros)


Contatos com o autorruigui43@gmail.com



* * * *
Ao aposentar-se, em março de 2013, o seu colega Heraldo Costa escreveu este artigo:
AO MESTRE RUI GUILHERME
COM CARINHO – 70 ANOS DE VIDA





 “A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces” (Aristóteles)

A primeira vez que o vi foi como Juiz numa reunião de boas vindas aos primeiros servidores da Justiça do Amapá, Comarca de Santana, em 25 de abril de 1992, no meio dos quais eu estava.
As inquietações eram muitas, as perguntas também, mas ao final daquela reunião ele nos deixou uma lição de vida quanto à ansiedade. Disse que ‘não deveríamos nos preocupar tanto com a ponte, antes que chegássemos nela’.
Os anos passaram e em abril de 1994, já universitário, tive o prazer de tê-lo como meu professor, na cadeira de introdução ao direito.
Lúcido, eloquente, ávido pelo conhecimento e pelas letras, contista, de humor perspicaz e de uma cultura vasta, assim é Rui Guilherme de Vasconcelos Souza Filho.
Rui Guilherme é paraense de Belém, nascido em 18 de março de 1943, formado em Direito em Belém-PA, cidade onde também foi advogado militante e professor universitário. Integrante da primeira turma de Magistrados da Justiça do Estado do Amapá, que tomou posse em 05 de outubro de 1991.

Já no Amapá como Magistrado, Rui emprestou também seus conhecimentos como professor para a nascente Universidade Federal do Amapá – Unifap, tendo sido professor tanto em Belém como em Macapá de uma turma de profissionais do direito como Advogados, Promotores, Procuradores e vários colegas juízes.
Como escritor contista, é membro da Associação Amapaense de Escritores – APES, publicou Leilani – Relato de uma Obsessão (Romance, 1999), obra que recebeu o Prêmio Inglês de Souza da Academia Paraense de Letras em 1990; Carta de Amor e de Ódio – e Outras Histórias (Contos, Cejup, 2005) e teve conto premiado e publicado em antologia da Unifap. No início do ano passado lançou o conto ‘O Velho’. O escritor Paulo Tarso Barros, assim define Rui Guilherme no lançamento do último conto: ‘um escritor perspicaz, talentoso, em pleno domínio do ofício de escrever, que nos deixa pistas do seu existencial no mundo das letras – uma experiência bem-sucedida ao lado de nomes consagrados que lhe outorgaram o manancial imprescindível para quem almeja um lugar no imponderável círculo literário’.
Assim é o Doutor Rui Guilherme, que sempre soube trafegar com maestria entre o ambiente sério e carregado dos fóruns, as desafiantes salas de aula universitárias e as hilárias histórias de seus contos. Assim é Rui, que sempre soube conduzir sua vida do privado para o público, do público para o familiar, sempre deixando marcas indeléveis na mente e no coração daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.

Lembro-me de uma de suas primeiras aulas em nossa turma de faculdade, em maio de 1994, por volta das 16h. Ao chegar na turma, deixou seus materiais didáticos e convidou a todos para que o seguissem. À época, a UNIFAP se resumia a um prédio da reitoria e um bloco de salas de aula.
Outros blocos e prédios estavam sendo construídos. Andando apressadamente, ele tomou um caminho ao fundo do bloco de direito e mais adiante parou e começou a dar aula sobre ‘cultura’. Falou, mostrando um reino de formiga, que aqueles pequenos seres, embora cavassem e cortassem folhas, poderiam ficar ali milhares de anos sem modificar nada do ambiente. Que nós seres humanos somos os grandes fomentadores da cultura e que podemos com nossas ações mudar tudo para o bem ou para o mal. Nenhum dos colegas jamais esqueceu essa aula.
Agora, por disposição legal, ao completar 70 anos, Rui Guilherme encerra a carreira de Magistrado no próximo dia 18. Creio que num momento como esse, uma série de pensamentos passa pela sua mente. Seus primeiros passos, a primeira aula, os primeiros rabiscos, os tombos, os machucados da vida, a adolescência, os estudos, a faculdade, do início ao fim. A maturidade. Os longos corredores percorridos como Advogado, o concurso da Magistratura. A primeira sentença, o primeiro júri. Os caminhos lamacentos percorridos nas estradas do Amapá, dirigindo a ‘burra velha’*. Enfim, tudo como começou e que daqui a alguns dias, termina. Mas este concluir não é o fim. É um recomeço, é um prosseguir, pois uma série de atividades ainda aguardam por seus valiosos conhecimentos jurídicos e de vida, já que ainda tem muito a contribuir com a nossa sociedade.
DOUTOR RUI GUILHERME DE VASCONCELOS SOUZA FILHO, meu colega, você dignificou de maneira impar a magistratura nacional e, mesmo desligado da judicatura, estarás sempre presente na história da nossa vida e na história do Amapá, pois como dizia a consagrada poetisa Clarice Lispector: “o futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido”.
Parabéns.
Heraldo Costa – Juiz de direito em Macapá

*Burra velha: carro oficial – Gurgel – que servia a Comarca de Amapá, em estado precário.

Texto publicado no blog de Alcilene Cavalcante em 12 de março de 2013 - http://www.alcilenecavalcante.com.br/alcilene/ao-mestre-rui-guilherme-com-carinho-70-anos-de-vida

Rui Guilherme na Biblioteca Pública
Estadual Elcy Lacerda - 2013

Foto: Paulo Tarso
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© Copyright - Rui Guilherme de Vasconcellos Souza Filho


C   O    N   T   O   S


AVENTURA NA ILHA DA PRINCESA

Éramos três, os aventureiros. Moacir e eu solteiros, na faixa dos vinte anos, nós dois professores de inglês. O outro, casado e pai, beirava os trinta anos, se tanto. Chamava-se Ararê.
Ararê era um tipo singular. Moreno claro, cabelos nem lisos, nem crespos, negros, em permanente desalinho; compridos, mas não longos, estavam em acordo com o tipo exótico que fazia meu compadre Ararê. Artista plástico, pintor, desenhista e muito bom em xilogravuras com temas do folclore amazônico, Ararê tinha um filho que lhe dera a comadre Oneide, miudinha, mas um poço de coragem. Otimista, acompanhava o marido fazendo artesanato. A venda das peças que ela confeccionava ajudava, e muito, no minguado orçamento familiar e na mantença da família.
O imaginário do Ararê não tinha limites. Nas histórias que contava de sua vida não dava para se distinguir a verdade dos fatos daquilo que ele criava com tanta convicção que acabava convencendo a ele mesmo, e assim querendo convencer seus ouvintes, de que seus relatos eram rigidamente verdadeiros. Começava com o seu nascimento. Ararê dizia que fora criado numa tribo indígena Craô; que a mãe dele, índia pura, na hora do parto vira uma bola de luz colorida que saíra da mata e ficara revoluteando pelo interior da choça; e que essa mesma esfera luminosa se apresentara diante dele e de Oneide, na hora em que ela dava à luz o primogênito deles. Bem, nunca vi comadre Oneide confirmar a vinda da tal bola de luz, mas também nunca a vi desmentir o marido. Nem nessa, nem nas muitas histórias que o Ararê desfiava, como aquela do encontro dele com a velha que morava nas matas da Jibóia Branca e que  virava Matinta Perêra nas noites sem lua.
Alto, magro, musculoso, o rosto de Ararê parecia com o daqueles índios norteamericanos esculpidos em madeira que ficavam na porta dos salões de barbeiros do faroeste.
Uma coisa é certa: Ararê era um prodígio ao caminhar na capoeira mais cerrada. Era difícil acompanhar o ritmo dele, e mais difícil ainda era progredir sem fazer barulho que nem ele. E para fazer ruído, Moacir era isuperável: batia com o facão o matagal, enredando-se na tiririca; lanhado pelo cipó unha-de-gato, praguejava como um pirata, espantando os bichos que queríamos caçar.
Moacir era pobre. Ararê, paupérrimo. Eu era remediado, o único a ter carro. Então, a gasolina, o farnel, as munições, tudo corria por minha conta. Para nossas expedições fabulosas, até as armas longas era eu que emprestava aos meus companheiros. À conta do Moacir, a cachaça. Ararê encarregava-se, e muito bem, do contato com os caboclos – os nativos, como dizíamos. O Compadre do Batelão,  líder comunitário na Vila do Abade, município de Marapanim, era comparsa do xilogravurista, e com ele rivalizava nos imaginosos relatos em que não faltavam a caça grossa, até mesmo uma esporádica onça que quase devorara um primo do Compadre. Mapinguari e saci-pererê, cobra boiúna, sucuris de pra mais de quinze  metros, tubarões – tubarões! – passeando-se preguiçosamente por sob os cardumes de sardinha, espíritos de padres tocando sinos fantasmas em ilhas que se sabia serem desabitadas, assim corriam as horas de preguiça em meio às expedições, nas conversas regadas à pinga em que fazíamos hora para as investidas noturnas atrás de bichos da mata.
Mais de uma vez, o Compadre do Batelão nos contara das coisas estranhas que se passavam na Ilha da Princesa. Dizia de uma família que resolvera lá se estabelecer: o pai, a mulher e quatro filhos, três meninos e uma filha que se punha mocinha. Montaram cãs;, fizeram um desembarcadouro; botaram criação de patos e galinhas, alguns porcos e meia dúzia de cabeças de gado pé-duro. Foram avisados, muitas vezes, pelo Compadre do Batelão e por outros moradores do Abade que era arriscado enfrentar as mandingas da Princesa dona da ilha, habitante das altas dunas que apresavam uma lagoa de água doce escura onde pernaltas pescavam.
Situada no mar aberto, só se chegava à ilha depois de horas de barco, saindo da vila por um braço de água salgada e ultrapassando a arrebentação. O colono que para lá se mudara com mulher e filhos ria das histórias dos moradores, dizendo que ele e a família estavam muito bem instalados; que a pesca era abundante, tanto no espinhel como na rede e no curral que construíra; que o gado sempre arranjava uns tufos de capim para pastar, e até engordava; que os patos e galinhas reproduziam-se bem, além de produzir ovos para consumo da casa; e que a Princesa não passava de lenda, fruto da crendice dos pescadores.
Contudo, já se haviam passado meses sem o invasor da Ilha da Princesa aparecer. Ninguém sabia dele, da mulher, dos filhos. Pescadores que passavam ao largo da Princesa atrás do peixe de primeira capturado no alto-mar não se arriscavam a aportar na ilha, mas diziam avistar o movimento dos moradores na praia distante. Contudo, depois de algum tempo, já não se via sinal de vida na ilha. Dava, sim, para ver a casa. O curral de peixe, também. Mas era só. Nenhum indício de vida humana ou animal.
O pessoal da vila do Abade, instigado pela curiosidade em saber o que era feito do colono e de suas gentes, resolveu meter-se em canoas e rumar para a Princesa. Quando lá chegaram, narrava o Compadre do Batelão, viram que o curral de peixe estava estragado, já sem serventia. A casa em ruínas, as palhas da cobertura quase todas arrancadas pelo vento. Dos patos, galinhas, boiada, porcos, nem sinal. Gritaram pelo nome do colono, da mulher: nenhuma resposta. Só o sibilar constante da ventania e o troar das ondas. Assombrados, os vilarejos já se aprestavam a tomar seus barcos e sair daquele lugar lúgubre quando Zé Arraia deu o alarme:- “Olha lá, na praia! Vem vindo alguém!” Era a mocinha, filha única do casal. Vinha nua, os cabelos desgrenhados, o olhar baço, igual ao de peixe morto. Cobriram-na com uma lona e colocaram-na a bordo. Ela não falava nada. Parecia que não havia ninguém em sua volta. Calada estava, calada ficou durante toda a viagem de volta. E calada ficou, e para sempre, sucumbindo em poucos dias à febre altíssima. Ao morrer, a menina levou para a cova toda possibilidade de se saber o que tinha acontecido na Ilha da Princesa.
- “Isso já faz uns quantos anos”, dizia o Compadre do Batelão. – “Depois daquela vez, ninguém quis mais se arriscar a enfrentar a encantaria da Ilha da Princesa.”
Para nós três, Moacir, Ararê e eu, sob o aguilhão da curiosidade e do espírito de aventura a que se juntava a coragem que nos dava a pinga que sorvíamos, a Ilha da Princesa era a meta ideal para a desmitificação da Princesa e seus mistérios. Depois de rápida confabulação, convencemos o Compadre a nos deixar de manhã na ilha, onde pernoitaríamos. Só iríamos voltar no dia seguinte.
- “Vejam bem, rapazes. Parece que vocês não estão acreditando na gente. Olha que nesses meus tantos anos de vida já vi muita coisa estranha. Enfrentei mar grosso, até naufragar já naufraguei. Medo não tenho, e de nada. Mas sei que certos mistérios ... bem, melhor não bulir com essas coisas...”
- “Compadre, ninguém tá duvidando de você, nem achando que você é mentiroso. Mas  nós estamos muito bem armados e equipados. Além disso, pode haver caça da boa na Princesa, e é isso que nós viemos fazer aqui: caçar. Queremos dar uma boa lanternada à noite nas matas da Princesa. Basta você nos largar lá de manhã e ir nos buscar de volta no dia seguinte.”
Com esses argumentos, Ararê conseguiu convencer o Compadre a levar-nos à Ilha da Princesa.
-“Tá certo, se é o que vocês querem...”, suspirou nosso amigo pescador. – “Mas vou só deixar vocês e buscá-los no dia seguinte. Mas não me peçam para ficar à noite na ilha, porque isso eu não faço de jeito nenhum”.
Saímos no raiar do dia, no batelão. Era tempo de sardinha e os cardumes faziam extensas sombras na água esverdeada do braço de mar, em rumo à arrebentação. Lembro de ter duvidado quando o Compadre falou de tubarões dos grandes nas águas tépidas e calmas do braço. –“Tubarão?”, pensei com meus botões. –“Tubarão aqui no Abade, um braço de mar? Em águas mornas? Mas quando! Esse compadre inventa cada coisa...”
Foi Moacir o primeiro a chamar nossa atenção. Sob o cardume de sardinhas que fazia a água verde tremelicar, pouca coisa abaixo passou a sombra de um peixe enorme. Nadava sem pressa, com majestosa indolência. Se era tubarão, ou se era outro peixe, não dá para dizer com exatidão. Era, contudo, imenso, coisa de três metros de comprimento ou mais. O Compadre nada comentou, mas o Moacir continuava a apontar para o vulto que durante algum tempo deslizou na sombra do bando das sardinhas. – “É tubarão? Caramba! Se o barco alagar, nós vamos ser devorados...”   
Chegamos à praia da Princesa no meio da manhã, sob sol escaldante porém sem calor, por causa da constante brisa que vinha do mar. Do curral de pesca, só algumas varetas continuavam fincadas. O trapiche, a maré destruíra. Uns restos de parede eram vestígios da casa que um dia existira. Nenhum sinal de vida, entretanto.
O Compadre despediu-se de nós compungido. O rosto estava sombrio. Parecia genuinamente triste, como se a despedida fosse muito mais que um temporário até amanhã. Parecia mais um adeus, e um adeus para sempre.
Minha estuante juventude e virilidade esforçavam-se para escorraçar uma pontinha de medo. Ararê estava impassível; Moacir, algo nervoso, mas controlado.
Eu trajava meu uniforme de caça, em tecido camuflado, bota militar, boné verde-oliva. À cinta, minha pistola Colt 45, com um carregador suplementar, e minha faca Jim Bowie. Além da mochila com a matalotagem e um cantil térmico para dois litros, levava minha lanterna de cabeça japonesa, mais a lanterna de mão alimentadas cada uma por quatro elementos, de foco fechado para longo alcance. Para completar, uma espingarda Winchester cal. 16, de repetição, no carregador seis cartuchos chumbo 3T  que derrubariam uma onça. Suplementarmente, mais doze cartuchos. Eu estava pronto para ir à guerra.
Ararê levava uma espingarda Itajubá cal. 28, de repetição, três cartuchos no carregador, mais os extras, faca e lanterna de 4 elementos.
Moacir tinha na cintura um revólver cal. 38, seis tiros, o facão de mato e bolsa para munição de reserva cal. 38, cal. 44 e cartuhos cal. 20 chumbo 3T, mais lanterna de 4 pilhas e longo alcance. Sua arma longa era uma espingarda Sant Etienne de três canos, dois para cartucho cal. 20, paralelos, e um sotaposto cal. 44, cano raiado e alça de mira acionável.
Estávamos, os três aventureiros, prontos para o combate. Viesse o que viesse, tínhamos poder de fogo para abater até um búfalo selvagem. Só não sabíamos se nossos cartuchos e balas funcionariam bem contra fantasmas.  
Da praia, próximo às ruínas da casa do colono, vimos o batelão de nosso amável Compadre cavalgar as ondas que estrugiam e tomar o rumo do Abade. Uma rápida conferência, e lá fomos nós andando pela areia alva rumo ao Morro da Princesa. A maré havia baixado. Depois de uma hora de marcha, vimos os contrafortes das enormes dunas e para lá nos dirigimos. Coube a mim ser o primeiro a avistar o escaler com remos de faia, dois homens a bordo. – “Olha lá! Vem vindo marinheiros para cá! Isso quer dizer que podemos esperar encontrar alguém nessa ilha diz-que deserta!”
Moacir e Ararê animaram-se ao ver os dois marinheiros que remavam com experiente sincronia, vindo do mar para a orla. – “Vamos lá, vamos encontrar os marujos”, falei. – “vamos ver que novidades podem nos contar!” E partimos rumo à embarcação. Firmando a vista, dava para ver os movimentos dos remadores. À certa altura, havia um pequeno aclive na areia que nos tirou momentaneamente a visão do bote. Quando se abriu de novo a vista do mar e que procuramos o escaler, havia sumido.
- “Mas que diabos...?”, dissemos em coro como se houvéssemos combinado. – “Cadê o barco?”, pergunta Moacir. –“Sei lá”, respondi. “Não o estou vendo”. E Ararê:- “Nem eu, Pra onde podem ter ido?”
Não havendo resposta, voltamos atrás em nossas pegadas com o objetivo de logo chegar à lagoa doce. Protegidos do vento pelas dunas, contávamos poder manducar alguns bocados à guisa de almoço.
Assim que ultrapassamos o aclive que nos tirara a visão das ondas, avistamos o escaler. Não passava de um tronco com dois galhos espetados que, de longe,  poderia nos ter traído por ilusão de ótica. Inexplicável é que não tivéssemos visto o tronco na praia quando vínhamos para a orla. O rastro, com a marca inconfundível das solas de nossas botas, passava a menos de três metros ao lado do “escaler”. Em mútuo consenso, decidimos não comentar o acontecido, certos de que tivéramos coletiva e simultaneamente a mesma miragem.
Os canos das armas longas que portávamos aos ombros em bandoleira faziam com que o vento, que agora estava muito forte, produzisse um som que parecia uma cantiga. Não dava para distinguir a melodia que soava intermitentemente.
-       “Vocês estão ouvindo?”, pergunta Moacir. “É como se fosse um rádio tocando ao longe. Parece até uma festa, e quase dá para ouvir pessoas falando...”
- “É só o vento, Moa. É só o vento”, retrucou o Ararê. “Mas”, pensei alto, “parece mesmo o som de um baile. Bem, pode ser que seja barulho de algum navio que esteja navegando fora do alcance de nossa vista e que a ventania traga em lufadas até nós”, arrazoei. E esse argumento aplacou-nos aos três.
Em vez de comer o almoço e para aproveitar ao máximo a luz do dia, preferimos dar uma batida em volta da lagoa de água escura. Longe de nós o suficiente para se ter certeza de que nossas armas não os atingiriam, aves pernaltas petiscavam atrás de achar o que comer. Fomos andando  em volta da lagoa até o ponto em que Ararê parou. –“Olha!”, apontou ele. “É um gato bem grande! Se não é onça, é um maracajá açu! Esse é o rastro da entrada do bicho na lagoa. Vamos procurar a saída!” Excitados, continuamos nossa exploração, mas em nenhum lugar se via as pegadas que indicariam onde a onça tinha saído da água. Por isso, retrocedemos ao ponto onde apareciam bem nítidas na areia as marcas das patas do felino entrando na lagoa. Ararê falou para acompanharmos o rastro, pois acabaríamos topando com a onça. Assim fizemos. Acompanhamos as passadas cerca de quatrocentos metros. O caminho acompanhava a duna que protegia do vento. Foi então que, sem qualquer explicação aparente, as pisadas terminavam. Delas não se via o mais leve traço. Pior: acabavam no meio do areal, sem nenhum arbusto para onde a onça pudesse ter rumado. Tão logo apareceu, vinha do nada, e no nada sumia.
Procuramos abrigo e comemos nossa ração fria. Alimentados, decidimos subir a duna mais alta, aquela que diziam ser a morada da Princesa. A areia fina, branquíssima, tornava penosa a escalada, tanto mais que o monte tinha cerca de cinqüenta metros de altura. Iniciamos a subida a partir de onde paráramos para o almoço. Vínhamos protegidos do vento. Então, no meio da subida, apareceram rastros de pneumáticos largos, como se fossem de trator. Os sulcos eram evidentes, e não podia ser outra coisa senão o trabalho feito por máquinas pesadas.
- “Então está explicado o barulho das\ conversas e da música do rádio! São os operadores de máquina que devem estar acampados do outro lado da duna!”, animou-se a dizer o Moacir com indisfarçável alegria e alívio.
Fiz-lhe eco: - “E não é? E a gente se assombrando com bobagens como um bando de caboclos supersticiosos! Vamos lá, turma! Daqui a pouco chegamos no acampamento da obra a tempo de filar um café fresquinho!” E lá partimos para o pico da duna da Princesa, certos de que, no contraforte, veríamos os tratores e os operários. Entretanto, quando chegamos, não havia nada. Nem trator, nem acampamento, nem cafezinho fresco. Só o vento a rugir, enquanto o sol descambava no poente em uma orgia de cores.
Do alto do Morro da Princesa, dava para ver uma ponta de mata. Começava a escurecer. Passeei o foco da minha lanterna pelos arbustos. Foi quando vi o brilho de dois olhos. Algum bicho havia grimpado o arvoredo e lá estava, ofuscado pelo clarão da lanterna de mão. Levantei minha Winchester cal. 16, dotada com alça de mira de marfim própria para tiro noturno. Ararê e Moacir esperavam ao meu lado pelo trovão do cartucho na arma “full choke”, com grãos de chumbo 3T. Se fosse a onça, o troféu era meu. Nesse momento, a luz de minha lanterna enfraqueceu até ficar como se fosse uma brasa e perdi a mirada de minha presa. – “Que diabos? As pilhas são novinhas...“ , pensei. Tentei focar com minha lanterna de cabeça japonesa, e logo deparei com a cintilação dos olhos da caça. – “Agora tu não me escapas, sua danada!” – Mas, quando refiz a visada, novamente o foco sumiu, a lanterna de cabeça quase apagada.  Ararê e Moacir, então, focaram na árvore e lá continuava trepada a onça. Mas, quando os dois firmaram a pontaria, as lanternas deles também apagaram. Foi assim que decidimos atirar no rumo, na esperança de que uma das cargas, não importa saída da arma de quem, matasse a presa. Lembro de ter feito três disparos. Os outros, não sei. Ficamos esperando pelo barulho do corpo da onça ao cair da árvore onde se pusera. Não veio barulho nenhum. Já estava quase escuro, mas, confiantes nas lanternas que haviam voltado a funcionar, descemos na carreira o Morro da Princesa e fomos explorar o capão de mato, em busca de nossa presa. No arvoredo, contudo, não havia sinal de nenhum projétil. Era como se os três atiradores estivessem com a pontaria tão ruim que nem mesmo um galho da árvore fora arrancado.
Decidíramos que não nos deixaríamos amedrontar pelos estranhos fatos até então ocorridos. Ficaríamos para dormir no sopé do Morro da Princesa. Éramos três, éramos jovens, éramos destemidos, éramos aventureiros indômitos. Armados e equipados do jeito que estávamos poderíamos enfrentar qualquer desafio. Dormiríamos no Morro da Princesa. Ao alvorecer, iríamos ao encontro do Compadre do Batelão, decididos a mostrar para ele e para o povo do Abade que  havíamos superado as magias da Ilha da Princesa, e que estávamos prontos para novas empreitadas.
De tudo que experimentáramos durante o dia, veríamos depois que nada era mais apavorante do que viria a seguir na noite do Morro da Princesa.
Protegidos do vento, acendemos um foguinho com galhos secos que conseguíramos catar e nos pusemos a contar amenidades, sem falar dos sustos até então pregados pela Princesa.
Nos anos cinquenta, sessenta, por aí, era enorme a influência do cinema e da música dos Estados Unidos. Um dos cantores americanos de maior sucesso era Nat King Cole. Com sua voz maviosa e intimista, imortalizou baladas românticas como “Mona Lisa”, “Unforgettable”, “Blue Gardenia”. Uma canção não muito difundida tinha uma letra que lhes reproduzo porque tem muito a ver com o fecho dessa história do Morro da Princesa. Chamava-se “I thought about Marie”. A  letra era assim, em parte:- “I had trouble finding sleep last night / So I  thought about Marie / I grew tired of counting sheep last night / So I thought about Marie / Our love affair had to struggle for existing / And many were the fights we had / But as I look back upon it from the distance / It wasn’t too bad...”.Traduz-se livremente assim: Tive problemas para conciliar o sono ontem à noite / E assim pús-me a pensar em Marie / Cansei-me de contar carneirinhos ontem à noite / E assim fiquei pensando em Marie / Nosso caso de amor teve de lutar para existir / E muitas foram as brigas que tivemos / Mas quando olho para trás à distância / Vejo que não foi tão ruim...”. Bem. Voltemos àquela noite no sopé do Morro da Princesa.
A conversa fluía, muito mansa, muito agradável. Como sempre, o primeiro a adormecer foi o Ararê. Em seguida, foi a vez do Moacir. Eu sempre tive problemas para conciliar o sono. E, ao que lembro, não havia naqueles dias nenhuma Marie para qual pudesse dirigir meus pensamentos. Com curiosidade, vi o Ararê dormindo profundamente. A brisa jogava no corpo do meu amigo bocadinhos de areia que iam se amontoando nele. Tive inveja, e também quis dormir, mas o sono não chegou, e nem me sentia com vontade de contar carneirinhos. Olhei para o Moacir, que ressonava tranquilamente. A areia, fina como talco, também se amontoava no adormecido. Veio-me uma sensação de paz, de tranqüilidade, de bem-estar indescritível. Aos poucos, fui deslizando para a inconsciência embalado pela brisa suave e pelo mugir distante das ondas do Atlântico. Dormi, não sei quanto tempo. De súbito, fui despertado por uma sensação  de perigo iminente. De início, tive dificuldade para me mexer. Boa parte de meu corpo fora coberta pela areia da praia. Contraditório é que, enquanto uma parte de mim bradava para que eu levantasse, para que eu ficasse desperto, para fugir daquele carinhoso sepultamento vivo, predominava aquela sensação de paz inefável, aquele desejo quase incontrolável de voltar a adormecer para ser tragado pelas areias insidiosas da Princesa e ali dissolver-me naquela ilha, para dela vir a fazer parte. Eternamente.
Consegui, enfim, levantar. À luz da lanterna vi que do Ararê só o rosto estava de fora. Moacir, como o Ararê, também já havia sido enterrado vivo quase todo. Comecei a gritar, apavorado, Queria a todo custo que meus amigos acordassem. Cavei, e com grande dificuldade fiz Ararê despertar. Juntos, tiramos Moacir de sua letargia. Coletando nossos pertences que já tinham na maior parte sido tragados pela Princesa, rasgamos para a praia. Sob a luz das estrelas, fugimos do apelo da Princesa com o coração dividido. Inegável que parte de nós pedia que deixássemos o medo de lado, que nos entregássemos aos carinhos da Princesa, pois ela nos daria a felicidade eterna. E até hoje, distante de meus companheiros de aventuras, apartados pela vida, sempre que lembro do episódio da lha da Princesa, vêm-me emoções misturadas. Satisfeito de ter podido escapar do feitiço da Senhora das Dunas, não esqueço daquele abraço que dela recebi, e  lá me vem à memória a balada que cantava Nat King Cole: “It wasn’t too bad”: não foi de todo ruim...




TARZAN DO TEMPO DA CRUZADA



Naqueles anos cinquenta, entre o molecório do Largo da Sé, bairro da Cidade Velha, em Belém do Pará, ninguém sabia o nome dele. Só era conhecido como Tarzan. Aquele apelido tinha muito a ver com o físico avantajado do menino de rua que fora acolhido muito pequeno pelo japonês Toshiro Sawada, que consertava bicicletas. Trabalhando na oficina, Tarzan geralmente estava lambuzado de graxa, no corpanzil e no traje. Este consistia em um calção de cor indefinida, meio folgado, preso a um suspensório de uma só alça que vinha atravessado da cintura na frente, passava pelo peito e ombro esquerdo e se prendia na cinta pela parte de trás. Imitava, assim, a tanga de pele de leopardo que trajava o Tarzan Rei das Selvas, o Homem Macaco que falava a língua dos grandes manganis - gorilas, no idioma dos antropóides. Essa língua os gorilas usavam para a comunicação entre eles, mas era entendida por todos os bichos da jângal africano. Falando o dialeto dos manganis, o Tarzan Rei dos Macacos era capaz de conversar com os animais, desde Tantor, o elefante, Sheeta, a macaquinha com quem Tarzan pode ter tido um caso de amor antes de aparecer Jane na vida dele; Numa, o leão das savanas, Hisstah, a perigosa píton, e toda a fauna.
O Tarzan da floresta africana fora genial criação do escritor norteamericano Edgard Rice Burroughs. Escritor e jornalista nascido em Chicago em 1875, faleceu em 1950, na Califórnia. Burroughs, que nunca esteve na África, concebeu a história de lorde Greystoke, inglês que se perdeu com a mulher e um filho recém-nascido na selva, após naufragarem na costa africana. O lorde e sua lady foram mortos por um gorila malvado de nome Kerchak, porém a criancinha foi salva pela macaca Kala. Kala adotou o pequeno filho dos Greystokes, amamentando-o e criando-o no bando de grandes primatas de que fazia parte.
Pelo fato de não ter pêlos como Kala e seus irmãos macacos, chamados de Mangani, o menino recebeu o nome de Tarzan. Na língua dos macacos, Tarzan quer dizer Pele Branca, e era um Tarmangani, ou Macaco Branco, pois era diferente dos nativos humanos chamados de Gomanganis, ou Macacos Pretos. Vivendo nas árvores, Tarzan saltava entre os galhos usando cipós em que se balançava e, como um trapezista, ia de um lado para outro em velocidade. O exercício constante acabara fazendo com que Tarzan desenvolvesse um físico prodigioso. Seus músculos, segundo  Burroughs, destacavam-se sob a pele glabra como se fossem nós em uma corda de aço.
A língua dos manganis, em palavras tais como krigah!¸cuidado, atenção; bandolo!, a morte; e tantas outras, tornaram-se do domínio de Tarzan, assim que ele podia falar com os bichos e entender o que eles diziam.
Para mim, e para muitos meninos da minha faixa etária, Tarzan era um ídolo, um ícone. No cinema, Tarzan foi vivido pelo ator Johnny Weissmuller. Suas aventuras, filmadas em preto-e-branco, eram exibidas em seriados semanais que lotavam aos sábados nas vesperais do Cine Guarani. O Guarani, ou Guaraxela, no dizer dos moleques, era, com o Universal, salas de projeção do bairro da Cidade Velha, em Belém, onde nasci e vivi até os dezessete anos.  Eu não perdia uma sessão. Além disso, economizava para comprar os livros de Tarzan da editora Terramarear, os quais lia e relia com avidez. Cheguei ao ponto de achar que já conseguiria me comunicar com os bichos da mata na linguagem dos Grandes Manganis. Minha crença era tanta que me lembro das vezes em que voltei a pé para minha casa no Largo da Sé após visitas que fazia ao parque zoobotânico do museu Emílio Goeldi. Terminada a aula particular de matemática, transformava o dinheiro do ônibus em pão que levava comigo até a jaula da anta. Lá, eu me punha a falar com a anta na língua de Tarzan. O paquiderme, acho, até já me reconhecia. Vinha para onde eu estava, fungava alegremente com sua trombinha, papava-me o pão que me custara a  longa caminhada de retorno do museu para meu bairro da Cidade Velha, e só. Por mais que me esforçasse caprichando na pronúncia mangani, a estúpida alimária enchia o bucho com o pão; e, quando a comida acabava, ia-se embora na maior indiferença. Dela jamais recebi nenhum grunhido de agradecimento.
De família católica e estudando em colégio marista onde todo dia se rezava o terço, era natural que o bom padre Nelson, apostando na minha piedade, me tivesse admitido na Cruzada Eucarística da Sé. Confesso, entretanto, que razões bem diferentes – e nenhuma delas pia – me atraíram para ser cruzado. Uma era a bola, a pelada que corria solta na quadra da Bateria, grupo de artilharia instalado no Forte do Presépio, vizinho ao Ver-o-Peso. Aproveitava-me do jogo de bola para chutar as canelas dos meninos meus rivais depois das aulas de catecismo. A segunda motivação para eu virar Cruzadinho eram as meninas. Tão bonitinhas, tão graciosas, mas tão distantes. Com elas era mais fácil conversar nos encontros da Cruzada Eucarística da Sé.
Entre as meninas, e disparadamente a mais bonita e mais cobiçada pelos moleques era a Léa. Minhamusa era linda! Os cabelos caíam-lhe pelas costas em uma cascata de ouro. Os olhos, verdes de perdição. Com a Lea eu trocava santinhos e olhares derramados de amor platônico. Embora ela nem suspeitasse disso, Léa era minha namorada. Sonhava poder fugir de casa com ela. Iríamos morar na selva. Lá, eu a salvaria da onça e do jacaré, protegendo-a de todos os perigos com meus músculos de aço. O problema é que nas matas do Pará seria muito difícil, para não dizer de todo impossível, arranjar uma macaca que nem a Kala para nos adotar e nos deixar viver nas árvores com os grandes manganis que, por aqui, não havia. Quando muito, de antropóides, eu so poderia contar com as guaribas e os macacos-prego.
Saindo da selva para onde eu iria fugir com a Lea, voltemos a falar de outro Tarzan.
Paulo Tarso Barros e Rui Guilherme
O Tarzan que consertava bicicletas era grande. Grande? Não. Ele era enorme! Colossal! Descomunal! Uma ilha! Os moleques todos, eu entre eles, faziam questão de tratar bem o Tarzan das Bicicletas. A ele dávamos ocasionais presentinhos de petecas, mangas maduras, revistas em quadrinhos que chamávamos de gibis, e outros mimos. Em retribuição, achávamos que Tarzan nunca iria nos chamar para a briga. Se fizesse – coitado do adversário! – era morte certa.
Vários meninos que já haviam apanhado de mim nas constantes batalhas campais em as quais me envolvia, e outros a quem eu já acertara a canela nas peladas sem que eles ousassem revidar, posso dizer que não morriam de amores por mim. Viviam esperando uma oportunidade para me ferrar.
No fim de tarde em que senti a morte se aproximar de mim, tudo começou com a visão excruciante do choro da Léa. Da minha Léa. A minha musa estava com fios de lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto mimoso, os olhinhos verdes cheios d’água.
- “Ele pegou em mim! Ele me tocou! Que nojo!”, dizia meu anjo, entre soluços.
- “Ele, quem? Quem foi? O que é que ele te fez?”, meu corpo gritava krigah!, cuidado na língua dos grandes macacos. “Me conta, o que foi?” E já ensaiava dar punhadas no peito, a gritar bandolo!, a morte!. Estava pronto para matar com mãos nuas o inimigo que ousara pegar na minha namorada.
- “Ele pegou no meu queixo! Ele pegou no meu queixo com aquela mãozona imunda!”
- “Ele, quem, Léa?” Meu corpo enrijecera mais, e em meu íntimo já havia até soltado o grito de bandolo!, a morte. Eu estava pronto para fazer picadinho do moleque que tivera a suprema audácia de pegar no queixo da minha Dulcinéa.
- “Foi o Tarzan! Ele pegou no meu queixo com aquele dedo gordo sujo de graxa! Ai, que nojo!”
- “Ah, mas isso não vai ficar assim! Eu vou pegar o Tarzan! Vou dar tanta pancada nele que ele vai se arrepender de ter mexido com você!”. Minha cólera era tanta que nem prestei atenção para o fato de que eu pretendia fazer o impossível. Bater no Tarzan? Naquela ilha?!? Era morte certa!
Meus desafetos ouviram-me dizer que ia encher de pancadas o brutamontes da oficina do japonês Sawada. Era a oportunidade pela qual eles ansiavam. E não deu outra.
Continuei tentando consolar Léa. Mas eu tinha que manter um olho no padre e outro na missa. Por isso, deu para ver quando o Tarzan vinha atravessando a rua, dirigindo-se para onde estávamos minha musa, eu e mais uma porção de gente que se ajuntara para ver o desfecho da tragédia anunciada. Não dava tempo para eu correr para casa. O meu eu Tarzan Rei da Floresta buscou refúgio no estoicismo. Fugir, não seria possível, tanto mais que a Léa dizia, apavorada, que o Tarzan das bicicletas estava se aproximando. Como o leão que deixa de ser dominante quando é expulso do bando pelo desafiante mais forte se resigna e se afasta para uma vida solitária, esperando a morte, assim eu, Rui dos Macacos, seria destronado pelo descomunal Tarzan das bicicletas.
Meu medo era tanto que quase podia ouvir as pisadas do gigantesco moleque. Ele era tão grande que sua sombra parecia abafar a luz do sol.
- “E aí?”, falou Tarzan com uma voz mortalmente calma. – “Peguei no queixo dela, e daí? Tu falaste que ias me quebrar na porrada? Tu e mais quantos?”
- “Te prepara pra apanhar, safado!”, trovejei.
Milagres acontecem. Não que tenha aparecido a turma do deixa disso. Ao contrário, o molecório gritava uníssono “porrada, porrada!”
Tarzan zuniu na minha direção. A mão imensa vinha aberta na direção da minha cabeça. No último segundo consegui me esquivar. Deu para sentir o vento do tapa que não chegou ao alvo. Parti para a ofensiva e comecei a esmurrar o Tarzan com a força do desespero. E aí operou-se o milagre: apesar de enorme, logo descobri que Tarzan não sabia brigar. Meus murros começaram a atingir a carantonha de meu adversário, e eu cada vez batia com mais força e precisão. Tarzan baixou a guarda, ajoelhou-se e começou a choramingar, suplicando para que eu parasse de bater nele.
- “Quando tu vieres por um lado da calçada, se a Léa vier na tua direção tu vais atravessar a rua, tu ouviste, seu safado?”
- “Prometo! Prometo!”, balbuciava o choramingas.
O sabor da vitória não tem igual. A derrota do Tarzan rendeu-me gordíssimos lucros. Entre eles, a reverência do molecório. Da Léa, ganhei um terço de contas azuis. Aceitei o terço com alegria fingida. O que eu esperava, mesmo, era ganhar o esperado “sim” ao projeto de fuga para as matas de Mosqueiro, para que Léa se tornasse minha Jane. Afinal de contas, éramos crianças. Além disso, não havia gorilas nas matas do Pará. Quando muito, algumas guaribas e macacos-prego. Havia antas. Treinando-as bem, elas poderiam se transformar em miniaturas de Tantor, o poderoso elefante aliado do Rei da Selva. Mas o treinamento das antas não iria dar certo. Muito burras, as antas não eram capazes de entender a língua dos Grandes Símios.

OUTROS CONTOS



O PRIMEIRO BEIJO

Para a poeta Raquel Braga

Chamava-se Ameríndio. Por que nome tão inusitado, nenhum dos onze aventureiros sabia. Como o nome era longo, todos o chamavam Amê. No time de futebol, era ponta esquerda, e era bom. Goleador. Posição garantida; titular.
Os onze tinham resolvido passar férias de inverno na Ilha. Era lá que os pais de Amê reuniam os dois meninos e uma turma de seus amigos de escola no verão, mês de julho. Não tinham casa própria, alugando por temporada, e sempre na praia.
Os moradores da Ilha, que a turma de Amê chamava de invernistas, acabaram acolhendo o pedido do pai de Amê para conseguir um lugar onde o garoto e Charlô, seu irmão mais velho, e a turma pudessem se instalar e viver seu sonho de aventura. Foi-lhes cedida uma casa de madeira, muito rudimentar, onde funcionava a agremiação política do administrador da Ilha, razão pela qual a dita casa era chamada de Partido.
Foi Waldemar, vinte anos e o mais velho de todos, craque de bola, canhota potentíssima que quase chegara a profissional do Paysandu – o Papão da Curuzu -, colega de turma de Charlô, quem teve a ideia de reunir um time de amigos peladeiros– os Onze Aventureiros, como iriam chamar-se. O plano era passar uma temporada na Ilha. Temporada fora das férias de julho, pelo tempo do carnaval, quando chovia a cântaros. Só os moradores permanentes, que não eram muitos, ficavam por lá. A buliçosa moçada da capital só estaria no balneário em julho, no tempo de sol forte do verão. Na Ilha, com chuva ... nem pensar!   
Amê, quatorze anos, era o caçula dos onze aventureiros. O irmão dele, Charlô, tinha dezoito. A idade média do grupo ficava entre dezessete e vinte. Sendo Amê um pirralho aos olhos da turma, Charlô só levou o menino porque o pai impusera. – Ou levam o Amê, ou eu não consigo casa para vocês na Ilha! Que é isso?!? Se ele serve para levar as botinadas de vocês nas peladas, como é que não vai poder acompanhá-los nessa temporada que vocês estão inventando de fazer?
Dizia o Waldemar que sabia cozinhar. Mentira. Nem ele, nem ninguém dos onze, entendia nada de cozinha. Mesmo assim, partiram âs compras no mercadinho Metralhadora. Foram solertemente enganados pelo comerciante. O feijão, por exemplo, era tão velho e tão duro que, quando os rapazes o comiam – e comiam porque não tinha outro jeito: era o feijão, ou a fome –,os bagos faziam um barulhinho metálico plinc! plinc! ao cair no estômago.
Todos bebiam cachaça, inclusive Amê, que não queria ser visto como criança. O fogão velhíssimo era a querosene, mas momento chegou em que o dinheiro estava no fim. A opção era: comprar querosene para o fogão, ou a pinga para a inspiração?
Passou-se a cozinhar em fogueira a céu aberto, sob toldo precário mas que dava para impedir que a chuva apagasse a  lenha. Amê, que entendia ainda menos que o nada de cozinha que falsamente alegara saber o Waldemar, só fazia comer a gororoba horrorosa. Puseram-no, então, como pirotécnico – nome pomposo para o encarregado de acender a fogueira depois que o fogão a querosene foi posto de lado, em favor da cachaça.         
O time acabou desfalcado depois que Fred foi expulso ao ser flagrado roubando leite condensado da despensa. Mudaram o nome do time. De Onze Aventureiros, virou Taurus Esporte Clube.
A fome rondava, mas os remanescentes  insistiam em ficar até o fim da temporada para não dar o braço a torcer para os mais velhos. Pais e mães dos aventureiros haviam vaticinado que eles não passariam nem meio mês, quanto mais janeiro e fevereiro, naquela tolice de quererem ficar dois meses por conta própria e longe de casa.
Saíam pelo mato a catar frutos. Tempo de jaca, coma-se jaca. Jaca dura, jaca manteiga, caroço de jaca cozido na água e sal. Jaca, jaca, jaca. Pesadelos com jaca.
Havia um pacto de honra quanto à escassa comida guardada na despensa: tudo seria racionado. Ainda assim, com cega obediência e reduzidas as rações, tudo o que se cozinhava, comia-se. para não morrer de inanição. Crimes como o do Fred, expulsão para ele tinha sido pouco. Falava-se em matá-lo se ele tivesse a audácia de reaparecer no Partido. Enfim, para sobreviver, jaca, jaca e mais jaca.
Cachaça sempre se dava um jeito de ter. Com a fome crônica, todo mundo estava fraco, de modo que bastava muito pouco de bebida para logo se ficar tonto.
Falou-se que haveria festa de carnaval no Pinheirense Social Clube. Para ir lá, era preciso atravessar o rio. Convites, o administrador municipal da Ilha já os conseguira.
Foram os dez, zonzos de fome, a cabeça girando com a pinga. Era festa de adulto, mas o Amê lá estava. Fazia cara de mais velho para não ser barrado.
- Iaiá, cadê o jarro / O jarro em que eu plantei a flor / Eu vou te contar um caso / Eu quebrei o jarro / E matei a flor – cantavam os brincantes.    
Os aventureiros do Taurus haviam se espalhado. Cada um buscava uma garota para pular o carnaval. Os mais velhos do escrete, mais experientes, logo se deram bem.
Amê, catorze anos, era tímido. Na verdade, era bom mesmo de bola; brigar, não, que não era de briga; esportes e aventuras, para isso, sim: estava sempre pronto. Entretanto, esse negócio de namoro não era com ele. Nem mesmo sabia dançar. Nunca estivera perto de mulher. Elas até que lhe davam olhares, visto que era bonito e bem arrumado, mas não sabia como agir com garotas. E de garotas, estava cheio o salão do Pinheirense. Amê queria colar com uma menina, mas a timidez o refreava. Contudo, a maldita rodava-lhe na cabeça e o fazia se sentir como um formidável conquistador. A hora de colar com uma morena chegara. - E a coragem, meu Deus? De onde é que vou tirar? -, perguntava-se.
O samba continuava, animado:
- Se você não me queria / Não devia me procurar / Não devia me iludir / Nem deixar eu me apaixonar...
- “Eu vi um gatinho, ora se vi! Eu vi, sim!”, dizia-se a morena Nadir. Nadir era uma predadora. Estava mais para invernista que para veranista, embora não morasse propriamente na Ilha. Morava na Vila do Pinheiro. Seu pai adotivo era razoavelmente rico: dono de uma olaria, construíra um casarão para a família à beira do rio, do lado do continente. Adorava a Vila onde morava, tendo sido presidente do Pinheirense Social Clube. Viúvo, moravam na olaria ele e a filha, Nadir.
Fazia pouco tempo que Nadir terminara o noivado com um piloto de avião. Morena, era o que se chama de falsa magra: corpo escultural, seios rijos e pequenos, pernas torneadas, cabelos castanhos levemente ondulados, olhos amarelados, Nadir ficou interessada quando viu chegarem os Aventureiros no bale do Pinheirense. – “Carne nova no pedaço...”, pensou ela, ao ver os meninos.
Os rapazes da Vila pouco lhe interessavam. Com muitos deles já andara dando suas voltinhas, plantando uma floresta de chifres na testa do noivo. Louco por ela, o aviador aceitava estoicamente quando vinham lhe denunciar as galinhagens da noiva. – “É, eu entendo. A pobrezinha fica sozinha quando eu estou viajando, e não é sempre que eu posso estar com ela. Quando a gente se casar, que eu puder levá-la comigo para longe de Pinheiro...”
Antes que o piloto pudesse realizar seu projeto, Nadir se aborreceu de vez da placidez do noivo. Não quis ouvir o que lhe dizia o pai. O oleiro secretamente nutria a esperança de fincar os pés do futuro genro em terra, botando-o sócio no negócio que lhe garantia vida boa e farta.
- Ah, pai! Sem essa! Ele é corno manso! Sabe que eu chifro ele, é só ele viajar! Não vai dar certo, pai. Para uma mulher como eu, não vale esse negócio de homem bonzinho, tolerante... – E Nadir mandou o piloto para o espaço, literalmente falando.    
Amê adorava cinema, mas só bangue-bangue, filmes de guerra, ação, tiros, peles-vermelhas e cavalerianos. Não sabia porque, mas sempre torcia pelos índios. Agora, filmes de amor... argh! Coisa mais enjoativa! Quando sentiu os olhares dardejantes que lhe endereçava aquela morena fantasiada de odalisca, os seios perfeitos abrigados meio que a descoberto no sutiã de taça armada, a barriguinha à mostra, dando sinais claríssimos de estar interessada nele, Amê sentiu o rosto pegar fogo. Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo. Deu-lhe gana de fugir, mas sabia quanto isso lhe custaria. Charlô, Waldemar e os demais, provavelmente já teriam visto a odalisca partir com tudo para cima dele. Amê sentiu-se encurralado. Buscando forças no desespero, devolveu o olhar. Um pouco aterrorizado, viu a morena vir dançando na direção dele, a mãozinha sinalizando para pularem juntos o carnaval.
- Escapar deste amor / É impossível / Evitar esta dor / É muito mais / Você arruinou a minha vida / Ora vai mulher / Me deixa em paz...
- Oi, gatinho! De onde você é? -, perguntava a odalisca, se esfregando em Amê. Era a jibóia pronta para dar o bote e enovelar o trêmulo passarinho.
- Da cidade. Estamos passando férias na Ilha. Estou treinando para fazer teste no Paysandu.
- Além de tudo, ainda é jogador do Papão! Papai vai adorar te conhecer! Ele é Paysandu fanático! – dizia a jibóia, apertando o cerco.  
- Eu vou pra Maracangalha, eu vou! / Eu vou de uniforme branco, eu vou! Eu vou de chapéu de palha, eu vou!
O samba corria, animado. O suor escorria pelo corpo dos foliões. Foi ali mesmo, no meio do salão, enquanto a orquestra puxava as músicas cujas letras todo mundo repetia, que a predadora Nadir deu o bote: puxou decidida o corpo fremente de Amê. Trouxe o rosto do rapaz para bem junto do dela. A magia dera resultado. Os olhos de Nadir coruscavam quando ela, antes de cerrá-los, viu triunfante o gatinho inteiramente dominado. Juntou seus lábios carnudos aos de Amê. O moço não sabia o que fazer, mas o instinto e a natureza logo se encarregaram de tudo. Amê entreabriu a boca. Logo sentiu a língua fremente de Nadir enroscar-se à dele. Os fluidos corporais entraram em ebulição. A sensação era diferente de tudo quanto o jovem sentira até aquele momento mágico. Nada, nem mesmo o título de campeão que ganhara no Colégio jogando pelo combinado; nem o êxtase sublime e o estado de graça que experimentara quando fez sua primeira comunhão; nem o fervor patriótico que o deixara sem fôlego quando havia sido chamado para ser porta-bandeira no desfile cívico do Dia da Raça; nem a  adrenalina que lhe inundara a circulação quando pescou o maior peixe que um pescador já fisgara; nada, nada mesmo, nem de longe se parecia ao que estava sentindo agora. Presa indefesa da sucuri Nadir, Amê achou que seu coração iria simplesmente explodir. Para ele, a morte coroaria tudo que pudesse provar de melhor e mais extasiante naquela hora em que recebia, num sábado de carnaval, o primeiro beijo de amor de sua vida.
Rio, 21 de agosto de 2015
Sob inspiração do maravilhoso conto “Um beijo roubado”, da poeta Raquel Braga






O MUNDO AOS OLHOS DO TIO BÊJA


Benjamim Deocleciano Pessoa, o tio Bêja, paraibano de família ilustre, primo de João Pessoa, cujo nome foi dado à capital do estado da Paraíba, e de Epitácio, que viria a ser presidente do Brasil, nasceu na segunda metade do século dezenove e durou até a segunda metade do século vinte, chegando ao fim de seus dias de aventureiro e navegante na cidade de Belém do Pará.
A irmã gêmea de tio Bêja, minha avó Nina, viúva de Santos Estanislau Pessoa de Vasconcellos, foi tia, madrasta e madrinha de minha mãe, Violeta.
Como é isso?, perguntarão. Pois bem. Eu vos direi. São coisas do antigamente. Coisas do nordeste. Coisas de velhas famílias nordestinas, daquelas em que os laços se enroscavam uns nos outros, na maior confusão, emaranhando-se nas árvores genealógicas como gavinhas nos pés de maracujá. Tentemos explicar.
O desembargador Santos Estanislau, cunhado do tio Bêja, casou três vezes, Em todas, as mulheres eram irmãs uma da outra, e com boa diferença de idade entre elas. A primeira chamava-se Maria Blandina, a vovó Iaiá. Cinco anos mais velha que o marido, dela adveio um casal. O casamento durou uns três para quatro anos.
Morta Iaiá, e cumprido o luto, Santos foi à Paraíba buscar uma irmã mais nova da falecida, chamada Maria Anália. Prendada e muito bonita, vovó Anália deu à luz doze rebentos, dois quais somente três meninas e um menino vingaram; entre eles, a mais velha, tia Neném; tia Conceição, nossa mamãe no Rio de Janeiro; tio Cássio, pianista, magistrado, de quem puxei o amor pela música erudita; e mamãe, Violeta, que herdou de vovó Anália a beleza e o refinamento. Tio Browne, americano de Vermont que veio a casar com tia Cecy, irmã de papai, chamava mamãe de lady Violet.
Anália era frágil. Como os partos se sucediam com pontualidade anual, Anália facilmente previu que não duraria muito tempo. Pensando em quem a sucederia junto ao marido, e com quatro filhos ainda pequenos, mandou que viesse da Paraíba sua irmã caçula, a adolescente Ana Zaíra, de alcunha Niná, gêmea do tio Bêja.
Niná orientava os empregados, zelava pela diversidade do menu, pagava o ordenado dos preceptores e da professora de piano; cuidava da higiene dos pequenos, contava-lhes histórias; enfim, zelava para que a rotina doméstica fluísse com harmonia, poupando a irmã o máximo que lhe era possível. Mesmo contando com a ajuda da diligente Niná, Maria Anália ia definhando cada vez mais.
Contam as crônicas familiares que certo dia vovó Anália, com a saúde combalida e sentindo a morte chegar, chamou Niná para uma conversa.
- Nina, tu tens sido muito mais que uma irmã, muito mais que uma grande amiga. Tens sido verdadeiramente uma mãe para meus filhos. Mais do que eu, coitada de mim que vivo de cama, tu cuidas das crianças, tu as educas, tu as mimas, e elas te adoram. Cuidas da casa, diriges os criados, atendes com presteza aos pedidos do senhor meu marido, teu cunhado Santos.  Por tudo isso, minha irmã, é que te peço: depois que Deus me chamar, quero que me prometas que irás te casar com o desembargador. Não te preocupes com o fato dele ser vinte anos mais velho do que tu. Santos é um homem bom, bonito, gentil, e até muito vigoroso. Ele saberá como fazer-te feliz, Teu lugar é aqui nesta casa, com ele e com nossas crianças; com elas, que tanto te adoram.
- Ora vamos, senhora minha irmã, pare de dizer bobagens. A senhora vai ficar boa, com a graça de Nosso Senhor. A senhora e o desembargador vão continuar vivendo juntos e felizes. Claro que amo meus sobrinhos, inclusive os dois mais velhos, filhos de nossa saudosa mana Iaiá, que Jesus a tenha. Mas, eu, casada com o seu Santos?!? Me perdoe, minha irmã, mas só achando graça! Logo eu, tão sem graça, tão feinha... Seu Santos, casar comigo? Não, minha mana. Seu Santos e a senhora são um casal perfeito. Deus há de lhe trazer de volta a saúde, dando-lhe muitos anos de vida!
Anália morreu. Santos ficou desolado. Botou luto fechado. A casa permanecia em pesarosa penumbra: portas, janelas, gelosias, tudo trancado. As cortinas, cerradas. O piano, obstinadamente mudo. Nina zelava para que mesmo os menores evitassem bulícia quando o pai estivesse em casa, em respeito à dor do viúvo. Falava-se em sussurro, como se se estivesse o tempo todo na igreja. Um dia, porém...
- Dona Niná, preciso falar com a senhora.
Renivaldo Costa, Felipe e Rui Guilherme

Dizia vovó que naquele momento achou que Santos iria mandá-la de volta para a Paraíba; que até já estava resignada com a ideia. Nós, os netos, achávamos graça e dizíamos que vovó saíra pulando de alegria do encontro, pois, no fundo, o que se passou era aquilo que ela mais queria que acontecesse. Enfim, segundo ela, o diálogo foi mais ou menos assim:
- Dona Niná, começou o avô com sua habitual pompa e circunstância. - A senhora sabe que continuo acabrunhado com a morte da minha amada dona Maria Anália. No entanto, já se passou quase um ano que Deus a levou. Há de convir que não fica bem a senhora continuar morando comigo e com meus filhos nesta casa.
Ao ouvir aquele preâmbulo, o coração de Niná quase parou. O desembargador puxou um pigarro e prosseguiu: - Pois bem. Embora a senhora seja muito moça, eu, por meu lado, ainda sou plenamente capaz, graças a Deus. A despeito de nossa diferença de idade, as pessoas podem não achar respeitável uma senhorita sozinha na casa de um viúvo, pai de família. Por isso, a melhor maneira de evitar maledicências, é a senhorita casar-se comigo. Já me comuniquei com a família Pessoa na Paraíba. Está a caminho do Pará o seu irmão Benjamin. Ele representará os familiares da senhora na cerimônia do casamento. Iremos casar dentro de três meses. Confio que a senhora cuidará dos detalhes.
- Está bem, senhor meu cunhado. Se é este o seu desejo, assim será feito.
Dizíamos nós, os netos, ao ouvir a recatada resposta de vovó Niná, que ela saíra aos pulos da entrevista, cantando o Messias de Haendel, a bradar “aleluia, aleluia, aleluia”! Vovó Niná, com um risinho mal disfarçado, negava nossa leitura da inusitada proposta de casamento. Insistia que só pensava no bem estar dos sobrinhos que criava como filhos; que tinha de submeter-se à autoridade do grave desembargador; que tinha de atender ao pedido que lhe fizera no leito de morte a mana Maria Anália. Todas essas coisas Niná dizia, mas não tirava do rosto aquele risinho maroto. Afinal de contas, só boas coisas viriam com o casamento. Casamento que livraria tio Bêja de ser preso na Paraíba, ele que já estivera querendo se envolver com o cangaço, e o traria para aventuras e desventuras na Amazônia. Casamento que daria a Santos e a Niná oito filhos e filhas. Casamento do qual também resultaria que nossa amada vovó Niná, além de ter sobrevivido ao velho desembargador Santos Estanislau, dele tornando-se viúva e cva e ctornando-se vi ao velho desembargador Santos Estanislau aventuras e desventuras na Amaz senhora seja muito moça, eu, por ônjuge supérstite, ela, que era tia pelo lado materno de minha mãe, da qual veio a ser madrinha de crisma, viesse, ao fim das contas, a ser, para minha mãe Violeta, tia, madrinha e madrasta. E tudo de uma só vez...
Violeta nunca chamou Niná de mãe, nem de tia, nem de madrasta. O tempo todo, minha mãe chamava Niná de “minha madrinha”. Nós, os aventurados filhos de Violeta, assim como todos os demais primos e primas – e eram muitos! – sempre a chamamos de vovó. Vovó Niná. Ou, na molecagem, de Frau Niná. Ou, ainda mais longe na molecagem, de Major Niná. Ou Frau Major.
Como antes dito, tio Bêja veio desterrado da Paraíba para o estado do Pará. Oficialmente, vinha representar a ilustre família Pessoa no casamento de Santos Estanislau com Ana Zaíra, a vó Nina. Na verdade, os Pessoa queriam evitar um escândalo. O jovem Bêja andara se metendo com um tio distante, o qual, dizem, formara bando e entrara no cangaço. Bêja, pé de valsa afamado, desde cedo amante de uma boa cachaça, arvorara-se a acompanhar o parente transviado em andanças pela caatinga. Para ganhar reputação de perigoso, Bêja andara se metendo em brigas de faca, e já tinha a polícia – os “macacos”, como dizia o cangaceiro – em seu encalço. Quando chega aos Pessoa a alvíssara de que Nina, gêmea de Bêja, arrumara casamento com um figurão da magistratura no Pará, embriagaram o moço Benjamin; meteram-no a bordo de um navio com destino a Belém. Foi assim que tio Bêja, mantido sob os eflúvios do álcool durante a viagem marítima, desembarcou no cais, onde já o esperava a caleche que o levaria a trote largo para o casarão da Serzedelo Correa, a tempo de servir de primeira testemunha na cerimônia do enlace de Santos Estanislau com Ana Zaira, irmã gêmea de Benjamim Deocleciano Pessoa, o tio Bêja, setentão quando eu o  conheci e de quem passo a falar.
Tio Bêja... Posso ouvir-lhe a voz mansa e arrastada, com o ainda forte sotaque nordestino. Posso ver-lhe os olhos levemente azulados, cansados, mas sempre ávidos por novidades. Posso sentir-lhe a ironia desprovida de maldade com que debicava de nossas jactâncias juvenis. E imagino como aqueles olhos velhos estariam olhando este mundo doido de nossos dias... Antes, porém, preciso alongar-me reproduzindo aventuras e desventuras daquele meu destemido parente quase cangaceiro, quase bandoleiro, quase arruaceiro. E dele lembro quando Mamãe foi resgatá-lo num quartinho sórdido aos fundos do boteco Cova da Onça. Ele, o tio Bêja, puxando briga com Deus e todo mundo quando estava de cara cheia, talvez por isso renegado por dois filhós bem de vida, veio morar com sua irmã gêmea, a nossa vovó Niná, a qual se recusava a ficar na casa de qualquer dos filhos uterinos que tivera com o desembargador para morar com a sua sobrinha/enteada/afilhada-de-crisma lady Violeta, Papai e nós três, os aventurados filhos de Viola.
Tio Bêja foi marítimo. Ao chegar no Pará ao tempo do casamento de Santos e Ana Zaíra Niná, na segunda vintena do século vinte, meteu-se em aventuras mil, a fazer navegação de pequena cabotagem. Não sendo de muito falar, pouca coisa se soube das suas peripécias, Soubemos que em suas andanças estivera navegando pela Amazônia. No Amapá, esteve nas matas de Calçoene, como se referia ao lugar. Se foi atrás do ouro do garimpo do Lourenço e de outras faiscações, não posso assegurar. O certo é que conseguiu amealhar algum recurso que lhe assegurou casar e ter dois filhos. Enviuvou. Os filhos foram criados. Acabaram seguindo a própria vida, sem dar muita atenção para o pai.
Pelo tempo da segunda guerra mundial, tio Bêja havia desembarcado. Conseguiu emprego na Base Aérea de Belém, como funcionário civil, morando no alojamento dos homens solteiros. Ao fim, foi nomeado para o serviço público federal. Isso lhe assegurava algumas modestas regalias, como o credenciamento para comprar mantimentos nos estabelecimentos de subsistência das Forças\Armadas, o que nos ajudou a  conseguir adquirir mantimentos com preços mais em conta. Lembro das lata \de biscoito Piraquê que tio Bêja trazia ao receber seus minguados vencimentos. Essa provisão por ele esporadicamente feita até rendeu uma boa história, entre nós conhecida como o bolo do tio Bêja.
O trigo, como tantos outros gêneros, andava escasso naqueles tempos de pós-guerra. Mamãe andava querendo fazer um bolo para comemorar um evento qualquer. Nem na subsistência militar, e muito menos no comércio, se achava trigo. Sem o trigo, impossível fazer o bolo.
Tio Bêja já estava morando conosco há algum tempo. Um dia, chegou em casa com um ar triunfante e fez entrega à Mamãe de um saco de papel:
- Tome, Violeta. Foi tudo o que consegui. Tem aí dois quilos de trigo.
Mamãe recebeu o presente com tanta alegria que parecia que, em vez do trigo, Bêja estava lhe dando dois quilos do ouro de Calçoene. Logo ela e vó Niná se dispuseram a bater a massa do bolo com o trigo do tio Bêja.
A massa cresceu. O bolo ficou tufado, uma cara muito bonita. Ao ser levado à mesa para ser fatiado e comido, quando nós, as crianças, recebemos nossas porções, com a sinceridade brutal de petizes que éramos, nossa reação foi unânime:
- Puááá! Eeeecaaa! Tá horrível!!!
Papai, a quem Mamãe, chamava de Nego Velho, muito cavalheiresco, enternecido ao ver a cara de tristeza de Violeta, à qual se somavam as expressões interrogativas de Vó Niná e do irmão dela, tio Bêja, atacou bravamente a fatia do bolo que lhe dera Mamãe:
- Meninos! Parem de ser tão mal-agradecidos! O bolo está maravilhoso! Ponha, Violeta, ponha mais um pedaço para mim, - disse Nego Velho. Foi prontamente atendido. Sem fazer careta, Papai engoliu o bolo, olhando-nos com reprovação.
Ao tentar provar o bolo, Mamãe deu-nos razão.
- Tem alguma coisa errada com esse bolo. Meninos, melhor não comer. – E recolheu nossos pratos.
Vovó e tio Bêja prudentemente não comeram suas porções. O resultado da bravura e cavalheirismo do Nego Velho logo se fez ver com a forte infecção intestinal que o levou a alguns dias de cama.
Feita a competente investigação, descobriu-se que tio Bêja havia sido enganado pelo atravessador. O precioso e raríssimo trigo de que Mamãe se valera com parcimônia, usando só metade do pó alvo, era, na verdade, um produto usado para pintar sapatos de branco. O trigo era alvaiade.
Nascido durante o Império, Bêja viu ser proclamada a República. Veio morar no Pará no final da era da borracha. Assistiu embates políticos apaixonados. Acompanhou os tempos de racionamento durante a Segunda Guerra Mundial. Como funcionário civil da Aeronáutica, nessa situação se manteve durante a ditadura militar. Morreu antes da redemocratização. Testemunha que foi de dias conturbados da história do Brasil, da Paraíba, do Pará, nunca se ouviu dele apreciações ou depreciações das voltas e reviravoltas dos poderosos. Isso não quer dizer que não tivesse opinião. Devia tê-la, mas a guardava, suspirando filosoficamente quando, em rodas, falava-se da política e dos políticos. Posso afirmar que, em solidariedade ao meu Pai, tio Bêja foi ardorosamente antibaratista, mas nunca engajado, como o fora o Nego Velho. Oriundo dos Pessoa da Paraíba, tio Bêja se manteve como enfant terrible em relação aos apaixonados primos Epitácio, João, e outros mais. Preferia os bailaricos do nordeste, uma valsa com a cabrocha, um trago da cachaça artesanal. Nem mesmo em relação ao cangaço, embora quase tivesse entrado para o bando daquele parente feroz, tio Bêja se manifestava abertamente a favor. Nem contra.
Quando se falava em preços, em inflação, em como a vida estava cara, tio Bêja exalava o seu famoso suspiro filosófico, contentando-se em ouvir. Era, coitadinho, forçado a ser extremamente econômico, ele que ganhava tão pouco. Fumante inveterado, quando subiu o preço dos cigarros Astoria e Aspirante, mata-ratos que ele consumia guardando as guimbas para reaproveitar o tabaco depois de lavado e posto para secar, Bêja passou a consumir fedorentas porroncas que preparava com fumo que ele mesmo migava, enrolado em tirinha de papel de seda marca Abade. Sua barba estava sempre rapada com aparelho Gilette Tech, aquele com lâminas que eram trocadas quando ficavam cegas. As de tio Bêja, contudo, não eram postas fora: ele tinha uma geringonça que, segundo dizia, amolava os gumes das giletes, de modo que essas duravam muito mais.
Abrira em Belém a Loja Seta, onde se vendia roupa masculina. A Seta, considerada chique, era o ponto onde a rapaziada soçaite daqueles anos dourados da década de cinqüenta, sessenta, ia comprar suas calças e camisas. Meu irmão e eu, já trabalhando e ganhando nossos reduzidos salários, sentíamo-nos na obrigação de comprar roupa feita na Loja Seta. Vaidosos, quando exibíamos para a família camisa da moda comprada à prestação, tio Bêja, para nosso regozijo, fingia estar maravilhado com a peça de roupa.
- E quanto foi a camisa, meu filho?
- Ah, tio Bêja. Baratinho. E o preço tá muito em conta – e dizíamos quanto havíamos pago pela roupa.
- Quanto? Mas só isso? Nossa! Tá de graça! Você devia comprar uma dúzia... – era a resposta do velho tio. Ele mesmo jamais gastaria toda aquela fortuna para comprar uma camisa da moda: o tio era freguês do armazém de roupas usadas do turco seu Nacibe. Amigo de tio Bêja, parceiros no jogo de damas, habituais no consumo do traçado de cachaça com Cinzano no quiosque da rua Marquês de Pombal, o turco e tio Bêja divertiam-se a discutir o preço – já insignificante – da roupa de segunda mão. E, seja pela camaradagem que havia entre eles, seja pela tradição oriental de sempre barganhar seguida à risca pelo turco, fato é que tio Bêja ainda conseguia ótimos descontos nas raras compras que fazia no armazém do seu Nacibe.
- Então, menino. Quanto foi mesmo que você pagou pela camisa na Loja Seta? – Só isso? Não acredito... Tá muito barato! Devia ter comprado uma dúzia! - A boca estava séria, mas o riso maroto lá estava no fundo daqueles olhos azuis e cansados.
Tio Bêja poupava o máximo que podia. O cigarro Astoria subiu de preço? Elimina-se o Astoria. Deixar de fumar, nunca. Abaixo o exagero. Mas é imperioso deixar de comprar o Astoria e o Aspirante. Estão muito caros. Mesmo reaproveitando o fumo das guimbas, o tabaco migado e enrolado no papel de Abade é mais barato. Então, vamos a ele.
A gilete ficou cega, mas ainda dá para umas quantas barbas depois de processada no amolador. Então, amolemos a lâmina.
- É, esta camisa já está surrada. Niná, faça um remendo nela, minha mana. Ainda dá para aproveitar  Não vou me deixar depenar pelo turco Nacibe.
E assim tio Bêja esticava o pouco dinheirinho do fim do mês, de modo que vez em quando dava para trazer uns biscoitos Piraquê pela satisfação que lhe dava ao ver a gratidão estampada nos olhos de lady Violeta.
No Brasil de hoje, tio Bêja, ninguém quer abrir mão de comprar roupa feita na loja de grife. A turma que devia controlar os gastos públicos, essa então, meu tio, nem pensa em trocar o Cohiba, ou o puro Havana, pelo Astoria ou pelo Aspirante, que há décadas deixaram de ser fabricados. E fumar tabaco de rolo envolto no papel de seda Abade é renomado absurdo. A barba, os homens fazem com aparelho de três lâminas afiadas eletronicamente. Acabou, joga fora. A gilete que você amolava saiu de linha faz tempo. E as madames não raspam pernas, axilas e lugares pudendos: fazem depilação, pagando honorários elevados para o dono do salão.
Nem dá para imaginar, tio Bêja, quanto você arregalaria seus olhos claros ao ver que no Brasil destes tempos não se vive mais à beira do abismo. Nele, nós já caímos. E enquanto durar a tresloucada farra com o dinheiro coletado da bolsa do povo, de onde se está não vai dar para sair tão cedo. Talvez nem cedo, nem tarde.  
         
Rio, 8 de agosto de 2015
         

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Sobre seu livro de contos O Velho, Paulo Tarso Barros escreveu:




"Percebe-se, desde o início, a elegância e o estilo de um escritor perspicaz, talentoso, em pleno domínio do ofício de escrever, que nos deixa pistas do seu existencial no mundo das letras – uma experiência bem-sucedida ao lado de nomes consagrados que lhe outorgaram o manancial imprescindível para quem almeja um lugar no imponderável círculo literário.
Após sua aplaudida estréia com o romance Leilani – Retrato de uma Obsessão, uma história com traços marcantes do realismo fantástico, e depois de lançar os contos de História de Amor e de ódio, agora o autor organizou seu novo livro batizado de O Velho. E segue, ainda em alguns destes textos, essa vertente instigante da prosa de ficção que é cultivada por tantos escritores importantes.
Rui Guilherme é magistral ao criar situações em que as personagens parecem estar ao lado ou à frente do leitor. O conto O Velho, por exemplo, nos transporta para o imaginário de saudades de um ancião aguardando resignadamente a morte, que parece o ter esquecido, pois a saudade “É, sobretudo, a falta que se sente de si mesmo”. Nostálgico e hilário, o conto é um relato sobre a solidão humana e a passagem do tempo na vida de cada um de nós, quando certos acontecimentos, mesmo aparentemente triviais, assumem amplitudes de afetar o destino.
Em O Diabo e Machado de Assis em Visita a Belém do Pará e Shangô, contos que nos transportam a mundos não materiais, onde as personagens transitam além da percepção humana, sem que falte a dose certa de humorismo e sarcasmo, que dão às narrativas aquela sensação prazerosa que tanto encanta os leitores de bom gosto, o escritor consegue dois inesquecíveis momentos ficcionais – fato primordial para o êxito de qualquer autor.
Numa combinação de lembranças, imaginação e talento, visitamos, prazerosamente, cada cena das histórias – interatividade que nos faz cúmplices, co-partícipes do seu imaginário, invadindo os porões onde os seres ficcionais vivem num mundo à parte, mas tão próximos de nós. Às vezes somos surpreendidos com a citação de personalidades do mundo real que também se movem nos cenários montados por Rui Guilherme, como fazia, por exemplo, Nelson Rodrigues, ao incluir seus amigos em algumas obras. Que o dissesse Otto Lara Resende, vez por outra povoando os textos rodrigueanos.

Em Souzafilhíadas, o autor nos adverte, bem-humorado, que seus relatos podem ou não ser verídicos – e deixa-se levar, ora liricamente, ora com ironia, pelas inolvidáveis reminiscências familiares, e parece se divertir com aquele instrumento de tortura tão utilizado na educação nacional de outrora: a famigerada palmatória, na sua família batizada solenemente de Chico. E por aqui eu paro, deixando ao leitor apenas indícios do que o espera ao folhear as páginas desta deliciosa obra literária". (Paulo Tarso Barros)

Contatos com o autor:
ruigui43@gmail.com