18 de mar de 2015

BLOG DA ALCINÉA DESTACA AUTORES DO AMAPÁ

Poeta em destaque – Paulo Tarso Barros

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 17/03/15 as 11:24 pm
tarsoPaulo Tarso Barros
Poesia? Vivo-a em mim
No mundo
No silêncio denso e quieto
No subterrâneo da alma:
Intensamente sozinho.
Ele vive cercado de livros. Começou a escrever aos 13 anos.  Aos 14 anos seus poemas já eram publicados nos jornais maranhenses. “O espanto, a solidão e a inquietude da infância, a vivência em meio a um ambiente de muitas belezas à beira rio que ficava atrás da minha casa, os imensos quintais cheios de fruteiras dos meus pais e avós, tudo isso me empurrou para as letras e para viagens incríveis da imaginação e da fantasia”, conta. Isso era lá em Vitória do Mearim – MA, onde nasceu em 1961. Está radicado no Amapá desde 1980.
Um rio que anoitece,
um rio que amanhece
e, envolto em brumas,
deságua em boqueirões
e nos sumidouros do mar…
Os primeiros livros e revistinhas em quadrinhos, como Zorro, Batman, Tarzan, ganhou da avó materna, dona Venância Bogéa e Silva, leitora inveterada que sabia de cor os poemas de Castro Alves e Gonçalves Dias.
Paulo Tarso escreve muito. Já publicou mais de dez livros de poemas, contos, romances, cordel e tem outros prontinhos para publicar. Escritor premiado, está em 13 antologias, não só do Amapá, mas de outros estados.
Até os anos 90 escrevia diariamente em cadernos e folhas soltas. Hoje raramente escreve à mão. Faz tudo no computador. E já não escreve todos os dias. “Fui diminuindo o ritmo e passando a dedicar meu tempo livre para as leituras, o que faço regularmente”, diz. Mesmo assim tem cinco livros inéditos de contos, poemas, crônicas e artigos, além de dois  de cordel e um compêndio literário quase pronto.
Entre mim e o poema,
sangram vocábulos esquecidos
nos escaninhos vazios….
E ainda tem tempo para ajudar os autores que querem publicar. Paulo Tarso está sempre pronto para ajudar os confrades. “Sempre considerei os demais colegas de Letras confrades, irmãos de sonhos e utopias”, revela. E isso ninguém pode negar. Ele revisa os textos dos colegas, faz a formatação dos livros, faz prefácio, acompanha a impressão na gráfica… faz tudo que pode para ver publicados os livros dos seus irmãos de sonhos.
“Eu tomei gosto tarso1por editoração, até por necessidade, pois não temos editoras e são poucos os profissionais na área por isso também tenho atuado como editor de muitas obras. Muito me orgulho desse privilégio de participar há vários anos da luta dos autores do Amapá e também da minha terra natal contribuindo com a edição de suas obras.”
Pergunto se ele tem manias. E ele responde: “Muitas”.
Peço que ele me conte algumas. E ele me diz: “Tenho o costume de datar tudo o que escrevo, de ler vários livros ao mesmo tempo, fotografar amigos, familiares, paisagens (sou fascinado por fotos antigas), de comprar canetas, lápis 5 e 6B, marcadores e caderninhos, além de ferramentas diversas, que mantenho sempre ao meu alcance para os pequenos trabalhos; lâmpadas e sempre uso as bandeirinhas do Amapá, Maranhão e do Brasil no painel do meu carro!”.
Entre mim e o poema,
a carne sangra sua alma…
E a alma, arcabouço silente de mim,
dissolve no silêncio seus vocábulos
e apaga das páginas minhas súplicas…
Entre o poema e o vazio,
há um turbilhão de silêncios
e uma revoada de nenhuns…
Entre mim e o poema,
sangram vocábulos esquecidos
nos escaninhos vazios….
PAULO TARSO Silva BARROS é natural de Vitória do Mearim – MA, nasceu no dia 29/08/1961 e desde 1980 é radicado no Amapá, filho de Miriam Bogéa e Silva e Euzemar dos Santos Barros. Professor comos cursos de Pós-Graduação em Letras: Português e Literatura pelas Faculdades Integradas de Jacarepaguá – FIJ (2009) e Licenciatura Plena em Letras pela Unifap (1995), casado, duas filhas, já ganhou prêmios literários e publicou diversos livros, centenas de crônicas e artigos na imprensa do Amapá, Pará, Maranhão, São Paulo, Pará e Rio de Janeiro. Fez editoração de mais de quarenta obras. É integrante da Academia Arariense-vitoriense de Letras (AVL), da União Brasileira de Escritores (UBE – São Paulo) e da Associação Amapaense de Escritores-APES (www.escritoresap.blogspot.com.br) e foi membro do Júri Nacional do Prêmio Multicultural O Estadão, de São Paulo; do Conselho Estadual de Cultura e do Conselho Diretor da Fundação Estadual de Cultura do Amapá-Fundecap e chefe da Divisão de Editoração da referida Fundação, além de ter dirigido a Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda, onde atualmente exerce suas funções. É funcionário da Secretaria de Estado da Educação do Governo do Amapá.
----------
Fonte desta Postagem: 

http://www.alcinea.com/poetas-do-amapa/poeta-em-destaque-paulo-tarso-barros

8 de fev de 2015

PROFESSOR ANTÔNIO MUNHOZ: CIDADÃO DO MUNDO - HOMENAGENS, FOTOS & CARTAS

Nota do editor:
Matéria republicada, atualizada, com acréscimo de texto e fotos.



Portanto, em comemoração ao aniversário do querido mestre, que ocorre no dia 10 de fevereiro, estamos publicando várias homenagens neste espaço do blog Literatura no Amapá, que ficará em permanente atualização para saudar tão ilustre personagem.


Publicamos abaixo a belíssima carta-poema que o nosso confrade Benedito de Queiroz Alcântara escreveu sobre o professor Munhoz, ao mesmo tempo em que republicamos uma postagem que fizemos anteriormente, também em homenagem ao nosso Mestre. Tudo isso para registrar e externar a nossa gratidão a esse ser humano tão especial.



ANTES QUE EXPULSEM DA SALA 
A MEMÓRIA DA GRATIDÃO
 

CARÍSSIMO PROFESSOR MUNHOZ,

Antes que minha memória seja abduzida para um poço sem fim
Antes que meu coração seja empedrado pelas fúteis vaidades
Antes que minha língua endureça num silêncio forjado
Antes que revisem minha trajetória existencial
Antes que meus olhos não possam mais te identificar
Antes que arranquem meus braços, minhas mãos, meu ...
sorriso.

Antes que não possas mais caminhar silenciosamente pelas ruas de Macapá






Prof. Munhoz caminhando sobre a calçada da residência governamental,
no Centro de Macapá. Maio/2011. Foto: Paulo Tarso Barros





Antes que não possas mais adentrar nas liturgias da Catedral de S. José
Antes que não possas mais proclamar as crônicas das tuas andanças
Antes que não possas mais comentar e questionar a vida humana
Antes que não possas mais explodir em saborosas gargalhadas
Antes que não possas mais banquetear-se com nossas comidas típicas.

Antes que te expulsem de qualquer sala
Antes que te esqueçam hipocritamente em uma solenidade
Antes que te forcem a voltar para a terra paraoara
Antes que tirem da lista de convidados de uma formatura
Antes que te olvidem dos eventos culturais
Antes que te chamem de ultrapassado e fora de moda.

Antes que...
Antes de tudo isso...

Permita professor querido, proclamar ao mundo, deixar registrado, como testemunho sincero de um ex-aluno do tempo do Colégio Amapaense, anos 1977-1978-1979, hoje um ser calejado, com filhos e trajetórias, professor de cada dia, agradecer imensamente porque Deus permitiu que um anjo seu viesse em nosso auxílio, deixar indeléveis marcas em nosso caráter, em nossa formação, em nossa visão de mundo e sociedade.

Quero testemunhar que, se hoje estou em sala, foi por causa sim de sua impetuosidade em nos ensinar a Língua Portuguesa e Literatura, como uma verdadeira viagem pelos quatro cantos do mundo, levando-me, imberbe jovem, a optar pela cátedra de história, com o sonho de trilhar as veredas dos lugares e adentrar nas facetas humanas de cada paragem.

Terno Mestre, não tinha como faltar às suas aulas, não tinha como não aproveitar cada minuto, não tinha como estudar por estudar, pois nos atiçavas para abraçar as aventuras da vida que a maturidade nos reservava.

No tosco espaço da sala de aula, ciceroneaste nossa curiosidade pelos diversos países, seduzindo-nos para os continentes, os povos e seus costumes, tudo aquilo que de mais belo e singelo o ser humano é capaz de construir.

Enfim, lá fomos nós para o chamado nível superior, sem cursinhos ou meros desafios, apenas com o que comemos e bebemos contigo e outros mestres. Era hora de partir, deixar a terrinha, deixar a família, adentrar nos mares nunca dantes navegados (por nós), não mais como expectadores e sim como atores principais.

Atravessei o Brasil, para o Sul distante e diferente. Depois para o Rio de Janeiro, dantesco e acolhedor. Mais tarde para a América Central, na Nicarágua querida. Até que, com a morte do meu pai Leandro, lá estava em missão por El Salvador e Guatemala, entre os fuzis e helicópteros da guerra maldita, larguei tudo e voltei para os meus, mais precisamente para ficar com minha mãezinha Maria até os seus últimos dias.

E por aqui fiquei, casei, vieram os filhos, sempre estudando, sempre peregrinando em sala de aula, envolvido em tantas atividades. E com o privilégio de te encontrar, na maioria das vezes, em nossas ruas e avenidas. E lá ficávamos a conversar, com o tempo parando para nós e correndo para quem nos acompanhava.

Assim vamos atravessando os sertões de nossas existências, eu também já trazendo meus cabelos brancos, que um dia espero que fiquem como os seus : cálidos e misteriosos.

Permaneço com a tenacidade de a cada dia adentrar nas salas de aula, desde a 5ª série até o Ensino Superior. E sempre, sempre, a cada ano, a cada período letivo, citar teu nome para os que hoje me chamam de professor. Recordando cada aula, cada narrativa de suas viagens, cada comentário, que se alojaram dentro de meu coração e que lá permanecerão ad aeternum.

Professor querido, em nome de toda a minha família de irmãos e irmãs que também foram teus alunos, em nome de todos os colegas de todas as turmas do “Colégio Padrão”, quero externar nosso sincero e singelo agradecimento por teres adentrado em nossa formação, em nossas vidas.

Professor querido, valeu e vale demais saber que tu vieste e permaneceste no meio de nós, desde ontem e para sempre, franciscanamente único-total-puro-universal. Tão absorto em suas meditações, tão generoso em suas reflexões, tão de tantos rostos e lugares e, maravilhosamente, tão nosso !

Neste dia, dedicado ao professor, antes que tudo desapareça ou desabe, ou que tudo possa ser mudado e esquecido, que eu possa registrar e proclamar, ao Mestre, com carinho, ao querido Professor Antônio Munhoz Lopes : VALEU !

Macapá, 15 de Outubro de 2008.



Benedito Queiroz Alcântara

Benedito de Queiroz Alcântara


...................................................
PROFESSOR MUNHOZ: 80 ANOS DE VIDA - 53 ANOS DEDICADOS AO AMAPÁ (*)

Professor Munhoz e quadro com sua fotografia na juventude
Foto: Paulo Tarso Barros/2012

Antônio Munhoz Lópes nasceu no dia 10 de fevereiro de 1932, em Belém-PA. Filho de José Ayres Lópes e Izabel Munhoz Lópes. Chegou a cursar filosofia, foi seminarista, mas acabou bacharelando-se em Direito. Chegou ao Amapá em 1959 e ingressou no funcionalismo do Território, ocupando o cargo de delegado no antigo DOPS. Porém, como escreveu o cônego Ápio Campos no jornal A Província do Pará, Munhoz emprestou à pacata segurança pública da época "um clima de cenáculo literário". Mas foi a partir de 1960 que ele deu início a uma das mais profícuas e brilhantes carreiras do magistério do antigo Território, sendo hoje reconhecido como mestre de várias gerações de ilustres figuras de destaque do Amapá.

Antônio Munhoz Lópes exerceu inúmeros cargos e funções importantes, sempre se destacando pela inteligência, a sensibilidade e o carisma. Até hoje é o nosso maior epistológrafo, pois se corresponde pelo velho e bom Correio com pessoas do mundo inteiro. Anualmente, o professor Munhoz faz uma viagem internacional e visita museus, igrejas, monumentos históricos. Foi assim que adquiriu uma cultura humanística invejável. Tornou-se um verdadeiro globe-trotter, cujas memórias há muito são aguardadas por todos nós.
 
Professor Munhoz com o Governador Camilo Capiberibe e o
escritor Paulo Tarso Barros na residência governamental - Março/2012


Felizmente, o professor Munhoz tem recebido, em vida, todo o carinho e reconhecimento pelo seu desempenho magistral em todas as funções públicas que exerceu, principalmente como educador e incentivador das Letras e das Artes. Por muitos anos foi membro do Conselho de Cultura, debatendo e formulando ideias, sugerindo ações por parte dos gestores culturais. É um dos mais assíduos frequentadores de eventos artísticos e culturais, ao lado da sua amiga, a professora Zaide Soledade.

A figura simpática e respeitável do professor Munhoz já faz parte da paisagem urbana do Centro de Macapá, em suas caminhadas diárias visitando a Biblioteca, Confraria Tucuju, livrarias, bancas de jornais, agência dos Correios (onde possui uma das mais antigas caixas postais!).


Como o mais globalizado dos pioneiros do Amapá, conhece muitos países e culturas, pois é um incansável visitador de museus, monumentos históricos, igrejas, teatros, restaurante e locais históricos. Seu acervo fotográfico se constitui no mais relevante arquivo que registra sua peregrinação cultural que tanto o estimula a cultivar os valores humanos e cristãos. Para mim, Munhoz é o exemplo maior de um cidadão que dedicou sua vida para usufruir da Arte e da Cultura e de tudo de bom que advém dessa escolha tão inteligente.
Minha primeira foto com o Mestre (1986) na
Escola de Música Walkíria Lima durante o
lançamento de meu livro "Poemas de Aço"

(*) Artigo publicado quando o professor completou 80 anos
Texto: Paulo Tarso Barros - http://twitter.com/paulotbarros













Abaixo, o poema que 
Alcy Araújo dedicou ao Mestre:

JARDIM, PODE 




(Ao cidadão do mundo Antônio Munhoz)



Como tenho sido pisado
espezinhado, espinhado, repisado
pela vida, pelos desencantos
e desesperos, angústias, desamores.



Canto a terra
a dor dos aflitos
e a inútil esperança dos desesperançados
também os negros, os índios e o verde
e presto relevantes serviços topográficos
demarcando itinerários de poesia




Quando eu morrer
alguma vereador
que leu ou sentiu meu verso
que sabe ou ouviu falar do meu cantar
apresentará projeto de lei
para que eu vire beco, rua ou avenida



Não quero esta homenagem
Recuso até ser praça
alameda, assim também parque ou estrada
Quero ser um teatro
um obelisco, uma escola
Academia, também não.


Rua, avenida, beco, não quero não
Não quero que continuem pisando em mim.
Pisar em mim,
só se eu virar jardim.




Leia a biografia completa do professor Munhoz baixando a obra "Personagens Ilustres do Amapá", de Coaracy Barbosa. Clique aqui para baixar







_______________________________________________
O ano de 2012 foi escolhido pela Secretraria de Estado da Educação para homenagear o professor Munhoz. Dentre as muitas homenagens, destacamos a Aula Magna que ele ministrou no auditório do Juseu Sacaca no dia 11 de dezembro de 2012.
Abaixo, publicamos um texto do professor (e ex-alno do Munhoz) Paulo de Tarso Gurgel, que faz um roteiro do que foi a preleção do mestre nessa noite memorável, que aqui vai registrada através das fotografias.

ANTÔNIO MUNHOZ LOPES UMA DECLARAÇÃO DE AMOR AO AMAPÁ
Colégio Amapaense. O ano pode ser 1968, 69, 70, 71, 72, 73, 74. Toca a primeira campainha. Apressados todos os alunos sobem as escadarias do famoso Colégio Padrão. Sentados, aguardamos o Mestre. Toca a segunda campainha às 18h30. Britanicamente, ele entra em sala, sorridente e saúda a todos com um suave boa noite. Deve ser a segunda quinzena d...
e dezembro. Antônio Munhoz Lopes, titular da cadeira das disciplinas Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira do tradicional Colégio Amapaense, logo, ele é o catedrático. Inicia, então, mais uma de suas brilhantes aulas àqueles estudantes ali presentes. Com um olhar quase 43 (naquela época ainda não existia o meu olhar 43), observa como sempre uma carteira vazia, notadamente, o seu “dono” ainda não chegara.

E assim o mestre inicia a aula: – “Caríssimos alunos, na próxima semana faremos a nossa prova final. Os senhores e senhoras estão concluindo o 3° ano científico ou 3° colegial. Muito bem. Então, a nossa prova abordará os temas, as matérias que trabalhamos durante esses três anos. [O mestre faz que não escuta os murmúrios: “essa não”, “de novo”, “era só o que me faltava”, “isso eu já sei de cor e salteado”]. E isto vai muito ajudá-los nas provas dos vestibulares que vocês farão em Belém, para a Universidade Federal do Pará e, vocês amapaenses sempre abiscoitaram as vagas oferecidas naquelas instituições: a UFPA e FCAP- Faculdade de Ciências Agrárias do Pará.

– Lembremos: No 1° ano estudamos as origens históricas da Literatura Portuguesa, a língua portuguesa, esta uma língua neolatina como o espanhol, o italiano, o romeno dentre outras. O primeiro documento literário português escrito é a célebre “Cantiga da Ribeirinha” de Paio Caldeirós. Não esqueçamos do grande poema épico português de todos os tempos que é “Os Lusíadas” [Aí o mestre interroga e a plateia atenta responde: Luís Vaz de Camões] Continuando meus estimados alunos, [nisto chega o dono daquela carteira vazia – adivinhem – Rodolfo dos Santos Juarez e, como sempre, levou um belo “ralho”], não poderia neste momento de fazer, melhor dizendo trazer para os senhores, a titulo de colaboração para suas leituras complementares estas obras da Literatura Brasileira, tanto no romance como nos versos, copiem por favor, só irei pronunciar somente uma vez, então, vamos: vou tecer breves comentários sobre a obra e quanto aos autores é de vossas competências [murmúrios outra vez], Já. Valendo. Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro - plateia atenta e assopros - Joaquim Maria Machado de Assis; Vidas Secas - Graciliano Ramos; Os Sertões - Euclides da Cunha [interessante que, quando o mestre citava a obra, os nomes dos autores sussurravam baixinho entre todos os alunos]. Continuando - O Guarani, quem é o autor Rodolfo?, “hein, o quê?”... é o que dá chegares sempre atrasado, respondam pra ele e todos: José de Alencar. Ainda sobre o romancista de Messejana, Paulo Tarso Barros, você que é aluno ouvinte do Maranhão, como se inicia o romance Iracema? Prontamente o futuro poeta responde: “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”; Memórias de um Sargento de Milícias, de Manoel Antônio de Almeida; agora a obra que fala da decadência dos senhores de engenho do Nordeste, [me arvorei e falei Menino de Engenho, de Ariano Suassuna, errado; Fogo Morto de José Lins do Rego, o resto da aula fiquei calado] e uma obra que traz um Brasil que pouco conhecíamos: Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.

– Vamos, continuando, estão cansados? Não, vocês são jovens e tem toda a energia do Paredão* para vos fortalecer. Os principais poetas brasileiros: O Boca do Inferno, como era conhecido o............................. Gregório de Matos Guerra; - um poeta altamente erótico [essa palavra causava calafrios em toda a sala] – Tomás Antônio Gonzaga – o Dirceu enamorado pela jovem Marilia – Maria Dorotéia de Seixas; Gonçalves Dias, de “Os Timbiras” e da “Canção do Exílio” e Zaíde Soledade declame a 1ª estrofe, e ela, levanta-se e obedece didaticamente:

“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá.
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como as de lá.
Não permita Deus que eu morra.
Sem que eu volte para lá!”

A plateia aplaude e pede bis.

– Temos o nosso poeta dos escravos, que morreu prematuramente, aos 24 anos de idade: Antônio de Castro Alves, suas obras “Espumas Flutuantes” e “Navio Negreiros”. Não esqueçamos da grande poetisa do “Romanceiro dos Inconfidentes” – Cecilia Meirelles.

– “No meio do caminho existia uma pedra” – o genial mineiro de Itabira – Carlos Drummond de Andrade, cujo poema “E agora, José?” transformou-se num grande sucesso musical na voz de Paulo Diniz.

– Crianças, ainda estamos no começo desta nossa aula, lembrem-se que na prova de 50 questões eu faço as perguntas e vocês escrevem apenas a resposta, de preferência que ela esteja correta. Não deixemos de mencionar o poeta pernambucano, autor de “Libertinagem” – Manuel Bandeira.”

O mestre, então, começa a declamar um poema:

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

– De quem estamos falando? Qual o título desta obra?
Todos respondem: Vinícius de Moraes – So-ne-to de Fi-de-li-da-de.

– Ainda temos Jorge de Lima com “Invenção de Orfeu”!

– São 22h20, ainda temos mais dez minutos e espero que não esteja cansando os meus diletos discípulos [“que é isso professor, pode mandar brasa”, grita a plateia, doida pra ir embora, mas bastante honrada com aquela aula, podemos dizer, “magna”]. Não devemos deixar de mencionar o primeiro documento literário no Brasil, escrito por Pero Vaz de Caminha, a Carta de Caminha, narrando sobre o Descobrimento do Brasil e já trazendo os primeiros sinais do nepotismo para a vida politica brasileira, a obra magnifica do missionário das Ilhas Canárias, precisamente de Tenerife – o beato José de Anchieta, o Padre Antônio Vieira com o célebre “Sermão aos peixes”, criticando os poderosos daquela época, numa igreja em São Luís do Maranhão. Ainda existe o púlpito de onde aquele grande orador proferiu esta sua magnífica obra; um outro nome: Antônio de Santa Rita Durão, Álvares de Azevedo que recebia influencia de Lord Byron, que por sua vez influenciava o Rodolfo (sempre o Rodolfo). Vejam o Naturalismo de Aluísio de Azevedo, com O Cortiço, Casa de Pensão, O mulato O Simbolismo com Alfhonsus Guimarães. Espero não ter esquecido de João Cabral de Melo Neto com sua “Morte e Vida Severina”.

Ainda faltam 2 minutos. Na literatura paraense citemos Inglês de Sousa, Dalcídio Jurandir e Lindanor Celina. Meninos e meninas, nesta aula de encerramento deste ano letivo, espero encontrá-los, quem sabe daqui a 20, 30, 40 anos, num local bastante agradável, com a graça de Deus e a presença de todos vocês. Até lá estarei oitentão, e alguns de vocês setentões, sessentões e outros passando dos cinquenta. Reafirmo neste momento que pelo Amapá o meu coração bate mais forte, pois aqui cheguei em 1959, com 27 anos de idade, a convite do governador Pauxy Gentil Nunes, irmão de Janari e Coaracy – o Amapá era conhecido como a “terra dos Nunes”. Vim para ser delegado de Policia, mas o magistério foi a minha grande paixão e agradeço a Deus por este momento e a presença de vocês, meus caros e eternos alunos.”

O mestre aproveita para alfinetar, metaforicamente, os desmantelos da ditadura militar que governava o país, e lembra o nome do grande religioso Dom Helder Câmara, arcebispo do Recife e Olinda.

De pé os alunos aplaudem o Mestre e cantam a música “Ao mestre com carinho”

(Aula proferida no auditório do Museu Sacaca em 11.12.2012).
*Paredão – antiga cachoeira no atual município de Ferreira Gomes, cujas forças d’água serviram para construção da 1ª hidrelétrica do Norte – a Hidrelétrica do Paredão, inaugurada em 1976.


Paulo de Tarso Gurgel (ao centro) ladeado pelo
professor Munhoz e por Paulo Tarso Barros

Paulo de Tarso Gurgel
Turismólogo. Licenciatura Plena em História
Aluno do “Munhoz”, no Colégio Amapaense nos anos de 1973/74.
________________________________________

Fotografias da Aula magna ocorrida em 11/12/2012 no Museu Sacaca.


* * * * * * * * * * * * * M* * * * * *

CARTAS DO PROFESSOR MUNHOZ PARA A
PROFESSORA ESTER VIRGOLINO


Publicamos abaixo, com a anuência do professor Munhoz, algumas cartas que ele escreveu a sua grande amiga e companheira de magistério a professora Ester Virgolino.

Para ler as cartas, Clique nas imagens 
para ampliá-las!

Professora Ester da Silva Virgolino - 1978 (Arquivo de João Lázaro)



















MAIS FOTOGRAFIAS DO MESTRE







12 de jan de 2015

DIAS IGUAIS


            Conto de Fernando Canto
1.
Caía uma chuva fina e chata. Era a véspera do dia primeiro de janeiro de 2015.
Perto da meia-noite eu e meus elegantes parentes fizemos a ceia e desejamos um ano próspero e saudável recíproco, nos cumprimentando e nos abraçando uns aos outros, registrando nossa felicidade em fotos e filmes, mostrando sorrisos lindos em selfies maravilhosos nas redes sociais, até que minha irmã não se conteve e falou sobre a ausência de nossa mãe que havia morrido entalada na ceia de natal com um naco de peru assado. Foi uma choradeira geral que acabou com a festa. Eles se despediram e eu fiquei em casa com a mulher a olhar pela janela de vidro os carros se afastando na chuva.  Ninguém quis esperar as doze badaladas do velho relógio de parede que antigamente encantava os olhos dos meus sobrinhos. Abri o Chandon sem escutar o barulho da rolha estourando, pois lá longe, na frente da cidade, belíssimos fogos de artifício explodiam em cores, desenhando novas estrelas sob um céu escuro e chuvoso. Eu nem reparei no tempo passando. A chuva aumentava de intensidade jogando grossos pingos na vidraça. Bebi a última taça do champanhe e fui dormir.

2.
            Ao acordar, ainda cedo, chamei Norya para caminharmos como fazíamos todos os dias. O dia amanhecera calorento, mas com indícios que não choveria mais. De fato, o sol surgiu nos dando a luz que a esperança traz nesses momentos ritualísticos de transição para um tempo bom que todos querem. No percurso as pessoas se cumprimentavam desejando sorte, saúde e prosperidade, o que, aliás, é uma coisa que gosto nesse período porque elas mal falam com a gente e nem sequer nos dão um bom dia no resto do ano, mas agora são educadas e comunicativas. Agem com cortesia e educação como se fossem sempre assim. Nessa época muitas delas parecem mesmo felizes, e eu reitero que acho bacana. Estou convicto de que não faço parte da plateia que as aplaudem em suas atuações anuais. E ademais todos vestem suas máscaras para se dar bem. Inclusive eu no meu trabalho, onde tenho que lidar com hipócritas todos os dias.
3.
            Caminhamos cerca de sete quilômetros em uma hora, como sempre. Falamos do cotidiano, dos filhos que mandamos estudar nos Estados Unidos e que por lá ficaram pelas oportunidades de emprego e segurança; da nossa saudade deles e dos netos; dos nossos trabalhos e da nossa solidão. Às vezes falávamos em viajar, mas sempre aparecia algo que nos fazia adiar o projeto. Era bom falar sobre isso porque já sentíamos o peso da idade e tínhamos que ser sempre companheiros para o que viesse. Eu já tinha uma doença crônica que controlava com remédios, e em Norya foi detectado, mas felizmente depois extirpado um câncer no cérebro, após uma delicada e bem sucedida cirurgia. Mesmo assim ela se submeteu a um doloroso processo terapêutico que a deixou quase irreconhecível por muito tempo.

1.
            À noite Norya e eu nos vestimos a caráter como no dia anterior e arrumamos a mesa nos preparando para a ceia familiar. Lá fora caía uma chuva fina que parecia não querer parar mais. Antes da meia-noite fizemos a ceia familiar, nos cumprimentamos e registramos nossos momentos particulares. De repente, minha irmã, tão sensível que era, começou a chorar falando o nome de mamãe que há poucos dias havia se engasgado com um pedaço de peru assado em plena ceia de natal. Consternados pela lembrança da matriarca em sua tragédia, meus parentes foram embora nos deixando tristes. Choravam muito sob a chuva que caía até entrarem em seus carros e tomarem o caminho de suas casas. Eu abri uma garrafa de champanhe e fiquei olhando o céu estrelado das cores dos foguetes que explodiam no céu escuro para as bandas da Beira-Rio. A chuva engrossara e batia com força nos vidros da janela. Tomei a última taça e fui dormir.
2.
            De manhã bem cedo acordei Norya e fomos caminhar como sempre o fazíamos. E o sol surgiu trazendo novas esperanças. Os passantes nos cumprimentavam felizes porque era o início de um ano que prometia ser melhor que o anterior. Eu comentava com minha esposa sobre como nossos colegas de caminhada eram corteses neste dia, já que eles nunca nos cumprimentavam, o que me fazia sorrir de contente e dizer a ela que gostava daquilo porque cada um põe a sua máscara no seu dia-a-dia para sobreviver, igualzinho a mim no meu trabalho.
3.
            Caminhamos como de costume aproximadamente sete quilômetros em uma hora. Falamos de tudo: dos filhos e netos no estrangeiro, da imensa saudade deles, das nossas ocupações profissionais e da nossa força para continuar vivendo sós, sempre colados, afinal estávamos ficando velhos e já havíamos passado por momentos terríveis de doenças graves. E Norya passou por momentos críticos durante o processo de cura de um câncer no cérebro.


            Certa noite, quando preparava a ceia de ano novo para a família em casa, me dei conta que aquilo vinha se repetindo como uma liturgia todos os dias do ano. E fiz um esforço supremo para lembrar algo que não fosse a nossa vivência dentro dos acontecimentos dessa noite e os do dia seguinte. Não consegui.
            Antes dos parentes elegantes chegarem reparei no relógio que antigamente encantava as crianças da família: batia nove horas. E seus ponteiros continuavam girando em sentido horário. Olhei-me no espelho da antiga cristaleira da sala e enxerguei minhas barbas tão brancas quanto a de Papai Noel. Também constatei uma espécie de vulto de Norya e a ausência de alguns dos meus parentes. Era uma constatação angustiante e sofrida como um paradoxo de tempo em minha memória, assim como se fosse um ferro em brasa penetrando na cabeça sem queimar, algo que quer fazer a lembrança fluir, mas encontra um paredão inacessível. Pessoas e carros viravam sombras embaixo da minha janela sob a chuva contumaz e os brilhos dos fogos de artifício coloridos caíam lentos no espaço escuro da noite. Eu começava a me embriagar com a última taça de champanhe e já não conseguia dormir.
            De manhã bem cedo em um desses dias de chuva fina quando as notícias dos jornais se repetiam, acordei a sombra de Norya para a caminhada matinal. O sol já se abria e as pessoas se cumprimentavam e nos desejavam saúde e prosperidade, embora não tivessem mais o entusiasmo e os mesmos sorrisos de antes. Ao chegar em casa encontrei o celular da minha mulher em cima do sofá, e ao manuseá-lo vi um calendário do ano de 2015. Certamente ela havia tentado sair desse ritual que nos prendia a um tempo pesado e mórbido que se derramara sobre a vida de todas as pessoas da cidade. Comecei a lembrar dos acontecimentos repetidos e num esforço sem precedentes não bebi mais champanhe e abri a janela de vidro para a chuva entrar em casa até amanhecer o dia.
            Foi Norya que me acordou desta vez, não a sua sombra. Caminhamos entre carrancudos passantes e uma chuva torrencial lavou a calçada enquanto o rio Amazonas dançava espocando suas águas no muro de contenção. Norya me olhava assustada e cúmplice, porque sabia que o ritual que participamos tantas vezes era imprescindível para vivermos. Imperioso era não morrer com nossos históricos apagados pelos cumprimentos, desejos e lembranças num mundo moderno que comprimia uma soturna solidão estampada no rosto dos caminhantes, os mesmos que punham suas máscaras demoníacas nas festas de fim de ano.
            À noite vesti meu velho terno branco e Norya o seu melhor vestido. Ninguém veio nos visitar. Jantamos à luz de velas e adormecemos felizes ouvindo o barulho da chuva na vidraça.
*******

            De manhã cedo foi Norya que me acordou e não a sua sombra. Então caminhamos sorrindo entre o vai-e-vem dos passantes, embaixo de um novo temporal que nos lavou a alma. O ano novo se aproximava novamente, pois o grande relógio digital da Beira-Rio o saudava em seu letreiro. Era a véspera do dia primeiro de janeiro de 2035.



- - - - - - - 
Fernando Pimentel Canto, paraense de Óbidos, radicado em Macapá, nasceu  no dia 29/05/1954. É sociólogo, poeta, escritor e compositor (atuando no Grupo Pilão), servidor da Universidade Federal do Amapá - Unifap, onde implantou a Editora e Rádio Universitária e já publicou, dentre outros, os seguintes livros: Os Periquitos Comem Manga na Avenida (poemas, 1984); São José de Macapá - Roteiro Poético (1985); Telas & Quintais (artigos e crônicas, 1987); Fedeu, morreu! (poemas, 1992); O Bálsamo e outros Contos Insanos (Editora da UFPA,1995); A  Água Benta e o Diabo (ensaio sociológico, 1998); Equino Cio – Textuário do Meio do Mundo (poemas, 2004); Adoradores do Sol (crônicas e artigos, Scortecci, 2010). Em 2002, lançou o CD A Música em Fernando Canto – 30 anos, onde reúne composições tendo como parceiros Osmar Júnior, Zé Miguel e Naldo Maranhão.

Leia mais sobre Fernando Canto em:


6 de jan de 2015

BARCO NOVO AMAPÁ: MAIS DE 300 MORTOS NA TRAGÉDIA DO RIO CAJARI

Para que não esqueçamos daqueles irmãos mortos...


Fotografias do livro "Morte nas Águas"

No dia 6 de janeiro de 1981, há 30 anos, foi indescritível a tristeza do povo amapaense. O barco Novo Amapá naufragara no rio Cajari e deixara um saldo de mais de 300 mortos. Aos meus vinte anos de vida testemunhei, no Porto de Santana, as imagens dantescas daqueles caixões imensos, dos corpos inchados, do trabalho de soldados, voluntários e pessoal do GTFA e o desespero de familiares. Por isso, na época escrevi o poema abaixo, publicado em livro posteriormente, onde também deixo meu testemunho poético. Aquilo que vi nunca mais saiu da minha memória.

O primeiro livro, escrito pouco depois da tragédia, a registrar o fatídico episódio foi escrito por João Alberto Rodrigues Capiberibe - Morte nas Águas - A tragédia do Cajari, que teve duas edições, e condensa em uma reportagem fartamente ilustrada com dezenas de fotos os fatos ocorridos, depoimentos e entrevistas. Muitas pessoas buscam esse livro, que se encontra há muito esgotado e bem merecia uma reedição aumentada e atualizada.

Hermes Colares, um ex-funcionário da Icomi, também publicou um folheto de cordel- Incoerência Humana (2002) descrevendo em versos populares a sua visão do naufrágio.

O escritor e sociólogo Fernando Canto escreveu também uma peça intitulada A Mulher do Fundo do Rio, que "aborda de forma poética e dramática situações que ocorrem no interior de uma embarcação que enfrenta um naufrágio e pretende levar o público à reflexão sobre as grandes tragédias que ocorrem nos rios da Amazônia e no mundo".  http://fernando-canto.blogspot.com/
 Sabe-se que o advogado Pedro Petcov recolhia material para também escrever uma obra sobre o acontecimento, mas infelizmente faleceu e não se teve mais notícia se a família ou alguém daria continuidade ao seu trabalho (Paulo Tarso Barros)






POEMA AOS MORTOS



No céu de estrelas e infinitos
maiores ainda, as noites de areia
me aprisionam como a
um alienígena incógnito.


Os navios mercantes
abocanham os portos,
guindastes, contrabandos e fiscais.
Os homens e as cargas
são dissolvidos nos portos.
As tristezas saem das águas sujas
e viajam para todos os continentes:
são a matéria-prima da humanidade.


A solidão do homem no mar
é uma porta fechada,
mas que se abre nesses portos.
Eu sei que o Porto de Santana,
mudo como as pedras,
assistiu à partida
do Barco Novo Amapá,
com centenas de passageiros
que mergulharam para uma
outra vida quando tentavam
viabilizar os sonhos
multinacionais
do Projeto Jari.


Comboios de corpos inchados
boiaram nas águas e foram mostrados
ao público através das câmeras de TV.
Soldados do 3º BEF ajudaram no resgate
e no enterro das vítimas,
entregues à terra diante dos
parentes infelizes,
consolados pelos vigários italianos
que rezavam pelas almas
daqueles afogados.

 
(Barros, Paulo Tarso. Poemas de Aço. Macapá,1986)
twitter: paulotbarros

* ¨* * ¨* ¨* ¨*

Leia a seguir um texto escrito pelo pesquisar e jornalista  Edgar Rodrigues:

Novo Amapá




Era noite de 6 de Janeiro de 1981, quando o barco ribeirinho Novo Amapá naufragou na foz do rio Cajari, próximo ao município de Monte Dourado (PA), levando às águas mais de seiscentas pessoas. Trezentas destas perderam a vida e dezenas passaram horas de pânico e desespero, imersas na água e na escuridão.

A embarcação, com suporte para transportar no máximo 400 pessoas e meia tonelada de mercadoria, partiu do Porto de Santana com mais de 600 passageiros e quase um tonelada de carga comercial. Seu destino era o município interiorano de Monte Dourado, com escala em Laranjal do Jari. Como as viagens anteriores duravam em torno de um dia e meio, seu proprietário havia reformado-lhe, instalando um motor hidráulico a mais, o que facilitaria na velocidade da embarcação.

A lista de despacho, segundo a Capitania dos Portos na época, tinha registrado cerca de 150 pessoas licenciadas pelo despachante Osvaldo Nazaré Colares. Mas na embarcação havia mais de 600 vidas. O despachante (falecido em abril de 2001, vítima de Dengue Hemorrágica) afirmou que só foi informado da tal lista após já ter partido há certas horas e que a lista foi deixada sob sua mesa, quando ele estava ausente.

O comandante responsável pela viagem, Manoel Alvanir da Conceição Pinto, seguiu todas as instruções necessárias do proprietário, sobre a viagem. O proprietário era Alexandre Góes da Silva, que teve seu corpo encontrado no camarote da embarcação. Hoje com 53 anos de idade e 29 de profissão marítima, Manoel Alvanir continua seus serviços como marinheiro. Atualmente trabalha em algumas embarcações no porto do Ver-o-Peso, em Belém. Poucas lembranças lhe vem à memória quando o assunto é a tragédia do Novo Amapá.

Seu único comentário volta-se para o comando do barco. Segundo versões de sobreviventes na época, a responsabilidade pela cabine de comando estava nas mãos inexperientes de um garoto. "Isso é mentira. Havia sim um garoto ao meu lado na cabine de comando, mas não deixei por nenhum momento ele pegar na direção do barco, como andaram dizendo", afirmou o ex-comandante que fez, da que seria uma simples viagem fluvial, o maior naufrágio da navegação brasileira.


"FOI INEVITÁVEL"



Segundo a lista da Capitania dos Portos do extinto Território Federal do Amapá, cerca de 650 pessoas embarcaram no Novo Amapá e menos de 180 puderam sobreviver. "Muita gente diz que foram duzentos e poucas pessoas que sobreviveram. Isto não é verdade", contradiz dona Creuza Marques dos Reis, sobrevivente hoje com 65 anos. Dona Creuza embarcou com sua filha e a neta. Somente ela e a neta de um ano e meio sobreviveram. Atualmente morando em Santana, tem como sustento um estabelecimento comercial diversificado.

Sobrevivente Armando da Silva Batista, hoje com 36 anos, trabalha na Champion Amapá no cargo de guarda patrimonial. Conta que uma das causas das inúmeras mortes terem ocorrido foi o auxílio dos salva-vidas. "Essas pessoas que pegaram os salva-vidas morreram quase todas porque dormiram e aquilo atrapalhou; não sabiam o que estava acontecendo", disse.

Funcionário de empresa que vendia utensílios de cozinha para toda a região do Amapá, Armando viajava freqüentemente em época de pagamentos, para fazer cobranças, acompanhado do colega Edson. Momentos antes da tragédia ambos haviam se separado. "Como a área das redes estava muito quente, disse pro meu colega que ia pro andar de cima e quem sabe só retornar de manhã", relatou.

Ao ser perguntado sobre o momento em que o barco tombou, Armando contou com detalhes: "Levei uns 15 minutos pra chegar na cabine. Quando cheguei lá, ele (comandante) mandou servir um café pra mim, pro Roberto (amigo) e duas meninas do Jari. Nos 15 minutos que cheguei lá, o barco deu um tombo para um lado e um tombo para o outro. Eu ainda perguntei pro Alvanir: 'Alvanir, isso é maresia?'. Ele disse: 'Rapaz, por incrível que pareça, nessa região não dá maresia'. Quando ele terminou de falar, o barco tombou de uma vez. Foi como uma virada de carro. Inevitável."

Buscando até mesmo com precisão a hora em que o barco tombou, foi o que aconteceu com o sobrevivente Enoque Magave da Silva, hoje com 41 anos, policial militar que, minutos antes do trágico tombo, conseguiu ver as horas em seu relógio de pulso: eram 20h45min. "Eu estava com relógio no braço e vi as horas normalmente. Quando de repente senti o barco virar lentamente. Como estava deitado numa rede de frente para uma senhora, fui um dos primeiros a parar logo dentro d'água na hora do tombo", contou Magave, que no mesmo ano do desastre casou-se com sua atual esposa e ingressou na Polícia Militar.

A recém-formada magistrada Kátia Isabel Andrade, hoje com 38 anos, era amiga pessoal da tripulação, principalmente do comandante Manoel Alvanir e do proprietário Alexandre Góes da Silva. "Tinha feito outras viagens no barco e já conhecia o pessoal", disse Kátia, que ironizou a tragédia momentos antes de acontecer, na hora da jantar. "Eu terminei de jantar e disse pro pessoal na mesa que ia me banhar e minhas colegas disseram: 'Tu vai morrer', daí eu falei: 'Não vou não. Se não morrer agora, não morro mais'. Daí fui pro banheiro, tomei banho e voltei pro camarote (...)". Segundo Kátia, foi tão rápida a virada do barco que ela só percebeu o que estava se passando quando as luzes do camarote se apagaram e que água circulava ao seu redor.

O DESASTRE

Após partir do Porto de Santana por volta das 14hs do dia 6 de Janeiro de 1981, a embarcação tombou aproximadamente às 21hs. A notícia da tragédia chegou à capital no dia seguinte, através de dois sobreviventes.

A verdadeira dimensão do desastre iniciou quando a imprensa local divulgou a lista de despacho na qual constava que somente 146 pessoas haviam sido liberadas para viajar, enquanto que na embarcação estiveram presentes mais de seiscentas pessoas.

Em menos de 48 horas toda a imprensa nacional voltou-se para o então Território Federal do Amapá, acompanhando todas as informações sobre a tragédia do Cajari. O jornal norte-americano New York Times do dia 10 de Janeiro publicou matéria na primeira página sob o título "Tragédia na Amazônia: 282 mortos".

CULPADOS

Segundo alguns sobreviventes, a inexperiência de um garoto na cabine de comando pode ter sido a causa do desastre. O garoto que muitos se referem pode ser José Roberto da Silva Pinto, hoje com 32 anos e que há pouco tempo trabalhava no cemitério onde foram enterradas as vítimas do naufrágio. "Isso é mentira dizerem que foi um garoto a causa principal da tragédia", disse José Roberto, criticando certas afirmações ditas na época pela imprensa.

Roberto era amigo da tripulação há tempos e, vez por outra, viajava no Novo Amapá a pedido do proprietário Alexandre Góes, que comandava a embarcação e também era dono de um estabelecimento comercial no município de Santana, onde Roberto já trabalhara. "Antes mesmo de começar a viajar no Novo Amapá, eu trabalhava num bar de que ele era dono", disse Roberto.

Alguns sobreviventes insinuaram que um banco de areia pode ter sido uma das principais causas do trágico tombo na foz do Cajari. Mas segundo certas informações que se encontram em livros geográficos e hidrográficos da época, o nível do rio Cajari era bastante alto para levá-lo a inclinar-se lentamente para as águas.

Outra grande causa - e a mais conhecida até hoje - vem a ser a superlotação da embarcação. Mas, pergunta-se: se a superlotação possa ter sido a causa do naufrágio do barco Novo Amapá, por que não tombou momentos após deixar o Porto de Santana, sabendo que havia uma grande quantidade de passageiros à bordo?

DINHEIRO

O Governo Territorial, que tinha como chefe executivo o comandante Annibal Barcellos, buscou auxiliar moralmente, mas a ajuda foi carente, tanto que a verba enviada do Governo federal para ser utilizada no resgate dos sobreviventes e servir parcialmente na indenização dos parentes das vítimas era de 25 milhões de cruzeiros (hoje em torno de 10 milhões), mas somente cinco mil cruzeiros foram usados, no que se levou a crer num desvio, assim divulgado pelo Jornal Amapá Urgente de 12 de Janeiro de 1981.

O fato entrou em processo jurídico um ano depois quando o advogado Pedro Petcov assumiu o caso, rolando pela Justiça federal por quase 15 anos. Após a morte do advogado em 1996, o caso foi arquivado sem ter alcançado o principal objetivo: indenizar os familiares das vítimas mortas e os sobreviventes. "Todos ainda têm uma esperança de algum dia receber algo da justiça pela aquela noite trágica", disse o sobrevivente Haroldo Fernandes de Souza, hoje com 44 anos, atual funcionário do Tribunal de Contas do Estado, na esperança de receber algum dia algo que compense a fatídica noite de 6 de Janeiro de 1981.

Fotografia do livro "Morte nas Águas"


DADOS TÉCNICOS DO "NOVO AMAPÁ"


- Comprimento Externo: 25,10m

- Comprimento entre Perpendiculares: 22,50m

- Boca Máxima: 5,88m

- Boca Moldada: 5,70m

- Comprimento de Arqueação: 21,68m

- Tonelagem Bruta: 100,445 toneladas

- Tonelagem Líquida: 66,189 toneladas


Fonte: Arquivos da capitania dos Portos


Departamento Regional do Pará


Inquérito Marítimo nº 22.031 - pág. 117